 

Ttulo: Promessa de paixo
Autor: DeAnna Talcott 
Ttulo original:  The bachelor and the bassinet
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1997
Publicao original: 1996
Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao e correo: Nina
Estado da Obra: Corrigida

Voc quer se casar comigo?
Nem Bob Gray, um solteiro convicto, podia imaginar que um dia iria fazer tal pergunta a algum. Mas fez. E, de repente, estava diante do altar com Lya Sinclair. Mas ser que foi s o desejo e a vontade de ajudar uma pessoa amiga que o fez dar um passo to importante?
Apesar de saber que Bob s lhe propusera casamento para que ela no perdesse a filha que estava adotando, Lya" Sinclair sentia-se muito feliz. Afinal, Bob Gray, o homem que jamais quisera se casar, ia lhe dizer sim, diante de Deus e dos homens. E, no fundo do corao, Lya guardava uma grande esperana: Bob, um dia, ainda lhe diria que a amava.

 
Voc est convidado para assistir ao casamento de
Lya Sinclair
(me da adorvel Kate) e
ROBERT GRAY
(o homem que um dia disse que jamais se casaria)
A cerimnia ser realizada na Igreja Matriz de White Star, no dia 27 de Maio, s 18 horas.
Em seguida, os noivos oferecero um jantar no salo de festas do Bells Inn.
(Aceita-se presentes para os noivos e para Kate)

CAPTULO I

Lya Sinclair olhou para a loja onde trabalhava e balanou a cabea em negativa.
	No, no havia necessidade nenhuma de chegar meia hora adiantada  ela disse, baixinho.
Como fazia todos os dias, limpou os ps no capacho que ficava em frente  porta, enquanto escutava os rudos feitos pelo seu patro, Robert Gray, vindos da parte de trs da loja, no cmodo amplo onde funcionava a oficina.
Devagar, Lya abriu a porta e entrou numa sala repleta de mveis feitos artesanalmente e tirou o pesado casaco de l. O cheiro de verniz e tinta, misturado com o de serragem e madeira, era muito forte ali dentro.
Lya inspirou profundamente e se sentiu mais tranqila. Ela gostava muito daquele cheiro. Aquele lugar, com seu assoalho de madeira e paredes brancas, onde trabalhava h seis meses, tinha passado a fazer parte dela, e no era apenas um local onde ganhava a vida. Aquele lugar passara a ser um refgio. E todo o bem-estar que sentia ali dentro se devia principalmente aos rudos que vinham da oficina. Era muito bom ouvir Bob trabalhar.
O rudo reconfortante do serrote parou. Instantes depois, Bob perguntava:
	 voc, Lya?
	Sou eu, sim, Bob.
Lya colocou a bolsa sobre uma cadeira e esperou que Bob fosse conversar com ela. Mas ele no foi: continuou na outra sala mexendo em algo. Uma vez s pela manh, Bob havia largado o que fazia para conversar um pouco com ela. E fizera comentrios sobre o frio e lhe dissera que estava muito plida.
"Meu Deus... Queria muito que ele viesse agora aqui falar comigo sobre qualquer coisa. Bob poderia falar sobre o que ele bem entendesse: sobre a neve que caiu ontem  noite, sobre o assalto ao banco... A nica coisa que eu precisava nesse momento era ouvir uma outra voz humana, algum que, de alguma maneira, me mostrasse que ainda estou viva." Ela deu um profundo suspiro e voltou a balanar a cabea de um lado para o outro. "No posso continuar desse jeito. Preciso fazer de tudo para me livrar dessa ansiedade e arrancar do peito essa frustrao que est me destruindo. E preciso contar a Bob o que fiz. Preciso contar a ele o que fiz e esperar pelo pior."
Lya fechou os olhos e os abriu em seguida. Na oficina, o barulho do serrote havia recomeado.
"No adianta continuar tentando adiar o inadivel. Se no contar tudo a ele agora, a situao pode ficar pior."
	Bob?  Lya chamou, mas no obteve resposta. Com muito esforo, ergueu os ombros e caminhou lentamente para a oficina. Ao chegar junto  porta, que estava entreaberta, parou e disse:  Me desculpe, Bob,
mas estou precisando falar com voc.
Bob, atento ao que fazia parecia totalmente ausente. "A estante dos Andersen est ficando muito bonita...", ela constatou em pensamento.
	No... isso aqui no est nada bom.  Ele agora olhava atentamente para um encaixe.  Vou precisar dar um jeito nisso.
S ento Bob percebeu a presena de Lya e a fitou de soslaio.
Aconteceu algum problema?  ele perguntou e voltou a olhar para o encaixe.
Lya ficou olhando para aquele homem loiro, alto, de olhos muito azuis, sem saber o que responder.
	... Aconteceu um problema, sim, com uma venda que fiz  ela disse, depois de muito hesitar.
Bob pegou uma lixa e comeou a passar sobre a madeira. A ansiedade que Lya sentia estava agora insuportvel.
	Fale com a minha irm.  ela quem resolve os problemas com os fregueses insatisfeitos.  Bob deu uma olhada para o mvel e, em seguida, continuou lixando.
	No, acho melhor no falar com a sua irm. Ns dois  que teremos de resolver o problema.
	Ns?
	Exatamente: ns.
	No entendi.
	O pedido do bero com grades precisa ser cancelado. Sinto muito, mas algo aconteceu e...
Bob parou de lixar a madeira e a encarou.
	Mas o bero est quase pronto!
	Eu sei.
	E eu no aceito cancelamento de pedidos. Ligue para quem fez a encomenda e diga isso a eles. E lembre a quem assinou o contrato que no existe uma clusula que permita que voltem atrs. A encomenda foi feita e, como disse, o bero est quase pronto.
	Eu sei, eu sei disso.
	Ento,  s ligar para quem fez a encomenda  ele insistiu.
	Mas, Bob...
	Lya, telefone para quem encomendou o bero e diga que eu no aceito cancelamento de pedido.
	Eu no posso!  Ela estava fazendo de tudo para conter o desespero.
	No estou entendendo voc.  Bob colocou as mos na cintura.  Como no pode telefonar para quem encomendou o bero? Uma das suas funes aqui  essa!
	Eu realmente no posso.
	Por qu? Voc sabe muito bem que tudo aqui  feito  mo. Alm do material que  muito caro, tambm tem o meu trabalho. No posso trabalhar em algo e, depois, sem mais nem menos, aceitar o cancelamento do pedido. Vamos, Lya, ligue para quem encomendou o bero e, com muita diplomacia, explique isso tudo; explique qual  a poltica da minha loja.
	 esse o problema, Bob, no preciso explicar qual  a poltica da loja.
	Tudo bem!  ele estava muito impaciente.  Quem fez a encomenda?
"Diga a ele! Vamos, coragem!  agora ou nunca!", uma vozinha interior lhe recomendava.
	Lya, eu lhe fiz uma pergunta: quem fez a encomenda?
	Eu...  Lya curvou os ombros e olhou para o cho. Naquele momento seria impossvel enfrentar aquele olhos azuis.
	Daria para terminar a frase?
	Eu  ela disse baixinho , eu fiz a encomenda.
	Voc?
	Fui eu, sim, quem fez a encomenda. Encomendei o bero para mim.
Lya deu uma olhada rpida para Bob e viu que naqueles olhos azuis existia uma grande interrogao.
	Voc est grvida  Bob afirmou.
Ela se assustou com aquela afirmao e disse:
	No, eu no estou grvida.
	Voc no est grvida  ele agora duvidava.
	No, eu no estou grvida  Lya repetiu.
	Isso  muito estranho. Pelo que eu saiba, uma mulher no anda por a encomendando beros para se divertir. A maioria das pessoas que conheo, homens ou mulheres, para se divertirem, vo  boate, ao cinema, a lugares que lhe dem um pouco de tranqilidade, onde possam espairecer. No concorda comigo?
	Concordo.
	Ento, me explique essa histria de ter encomendado o bero, j que no est grvida.
	Bem, eu...  Lya deu um profundo suspiro. Era agora ou nunca!  Eu realmente no estou grvida. J tenho um beb.
	Voc tem o qu?  ele perguntou, incrdulo.
	Eu tenho um beb.
Pela primeira vez desde que havia comeado a trabalhar na Season, Lya teve a sensao que Bob realmente a enxergava. Ele sempre se mostrava muito distante e, apesar de trat-la com muito educao, estava sempre mergulhado num mundo inatingvel, todo particular.
	Meu Deus! O que est acontecendo aqui? Ser que a minha loja virou abrigo para mes solteiras? Primeiro foi a Beth, agora...
Lya sentia-se muito sem graa e profundamente desamparada. E, apesar de todo esforo para se conter, comeou a chorar.
Diante daquela cena, Bob se aproximou de Lya. E ela sentiu o cheiro que emanava dele. Uma mistura de loo ps-barba e madeira. S Robert Gray podia exalar um odor to pessoal, to caracterstico, to gostoso.
	Por favor, me desculpe. No queria ofend-la. Mas isso  uma grande surpresa para mim: voc tem mesmo um filho?  Bob tocou-lhe o brao de leve.
	Na verdade, o filho no  meu.
	Agora  que no estou entendendo mais nada. Voc tem ou no um filho?
	Tenho  ela afirmou.
	Lya, tem certeza que voc est bem? Que histria  essa? No estou entendendo.  Ele inspirou profundamente e voltou a perguntar:  Voc tem ou no um filho?
	Tenho. Eu tenho um filho, sim.
	Mas acabou de me dizer que o filho no  seu.
	Me expressei de maneira errada.
	Ento, por favor, tente se expressar de uma maneira mais clara.
	Eu adotei uma criana.
	Voc adotou uma criana?  ele perguntou, com os olhos arregalados.
	Adotei.  Lya inspirou profundamente.  H trs semanas.
	E por que no me contou isso antes?
	Bem, achei que no fosse se interessar pelo assunto, que voc no fosse se incomodar. E eu trabalho aqui apenas trs vezes por semana.
Bob ainda a fitava espantado.
	Quer dizer, ento, que mesmo me vendo fazer o bero, resolveu no me dizer nada.
	Jamais pensei que fosse fazer alguma diferena.
	O que no faria diferena?
	O fato de eu ter adotado uma criana.
	Bem, mas como'acabou de ver, fez diferena, sim.
	Me desculpe, por favor. Sei que o material que gastou  caro, sei que j perdeu muito do seu tempo para constru-lo  Lya esfregou uma mo na outra e continuou:  Mas no se preocupe, voc no vai perder nada. Vou pagar pelo bero. S que no posso lev-lo para o meu apartamento. No posso mesmo.
	Por qu?
	Por favor, Bob, estou me sentindo muito chateada. E me desculpe por ter tentado cancelar a compra.
	Eu perguntei por qu, Lya?
	No estou estendendo voc.
	Por que adotou essa criana?
A pergunta fez com que o corao de Lya disparasse. E a culpa, a culpa que carregava dentro do peito a inundou por inteiro e a fez se sentir imperfeita, inadequada, a pior mulher do mundo.
"E eu achava que havia superado tudo, que o passado havia ficado enterrado. Mas no, ele est aqui e vai me perseguir pelo resto da minha vida. E agora Bob quer saber o motivo que me levou  adoo. Bob quer saber, quer detalhes do que foi a minha vida nesses ltimos anos. Mas no estou emocionalmente preparada para lhe revelar esses detalhes."
	Isso para mim  loucura, Lya!
	Loucura?
	, loucura! Voc  jovem, tem toda uma vida pela frente. Como resolve, de repente, adotar uma criana?  muita responsabilidade em jogo, sabia?
Lya olhou para o cho coberto de serragem. E teve a sensao que cada pedacinho da madeira tinha sido retirado de sua alma.
"Bob no tem o direito de me dizer tudo isso."
	Uma criana exige muitos cuidados, Lya. Pensa que  assim? De repente, a gente resolve adotar uma criana e pronto? No, de jeito nenhum. Voc deveria ter pensado melhor antes de dar um passo com esse. Por qu? Por que fez isso?
	Porque a vida  minha, Rbert Gray  ela se ouviu respondendo.   minha. E porque era exatamente o que eu queria fazer, era o que eu queria. Eu quero uma famlia, uma...
	Eu no acredito!  Bob passou a mo pelos cabelos.  No acredito mesmo!  Quantos anos voc tem? Trinta? No, voc deve ter bem menos que trinta anos. Mas isso no tem a menor importncia. O que importa  que voc resolveu complicar a sua vida. Ser que ser me solteira no assusta voc? O que  isso, meu Deus do cu? Ser que no v a vida que a minha irm leva?
Lya esperava por vrias reaes de Bob quando soubesse da adoo, menos que fosse ficar com tanta raiva. Seu rosto, sempre sereno, se mostrava tenso, quase irreconhecvel.
Talvez eu queira a mesma vida que ela.
	Beth no tinha completado dezoito anos quando deu  luz a Tyler. E a vida dela mudou totalmente: teve que deixar a escola durante um ano. Depois, s pde voltar a estudar  noite. De repente, uma vida tranqila foi transformada em um grande pesadelo. Acha que  fcil acordar  noite com uma criana doente? No, no  nada fcil. Minha irm desistiu de muita coisa por causa do filho.
	Sou bem mais velha do que Beth era quando teve o Tyler e tenho uma vida mais definida. E tomei tal deciso porque me senti pronta.
	Voc no faz a menor idia de onde se meteu!
	No consigo entender o motivo de tanta hostilidade. S queria conversar com voc sobre o bero.
	No consigo entender as mulheres. Por que a maternidade  to importante assim para vocs? Por que  to importante gerar um filho?
	Eu no gerei essa criana.
	Tudo bem, voc no gerou essa criana. Mas me diga: por que resolveu adot-la?
Lya estava se sentindo profundamente incomodada, profundamente humilhada com aquela conversa. E precisava pr um fim nela. Para tanto, usaria uma s palavra:
	Infertilidade.
	O que foi que voc disse?  ele perguntou muito aturdido.
	Infertilidade  agora Lya disse a palavra bem devagar.
	Voc...
	Exatamente. O mdico me assegurou que jamais gerarei uma criana.
	Lya, me desculpe. Acho que fui longe demais. Mesmo assim, acho que voc deveria ter pensado melhor no assunto.
Ela, inconformada com tanta insensibilidade, comeou a soluar.
	Ser, ser que voc no entende?
	O que eu deveria entender?
	Essa era a minha grande chance de me tornar me. Talvez a minha nica chance. Como poderia me negar? Estou ficando velha e a lista para adoo  muito grande.
	Voc deveria ter me contado.  Bob a abraou. E aquela atitude a surpreendeu muito. Os dois, at aquele dia, tinham apenas trocado alguns apertos de mos.  A, poderia ter comprado algum presentinho para o beb. Tambm poderia ter caprichado mais no bero.
Bob se afastou um pouco. Mais relaxada, Lya respondeu:
	Tudo o que voc faz  sempre de primeira qualidade. Duvido que poderia ter caprichado mais no bero. Ele est ficando lindo.
	Voc acha mesmo?
	Pode acreditar. Nunca conheci algum que trabalhasse to bem com madeira.
	Obrigado pelo elogio, Lya. "
	Voc no tem o que agradecer. Sabe que estou falando a verdade.
	Mesmo assim, muito obrigado pelo elogio.
Depois da forte tenso, Lya estava se sentindo muito
bem. E tinha gostado bastante da atitude de Bob, que no demonstrara a menor pena por sab-la incapaz de gerar uma criana.
	S tivesse me contado tudo antes, teria colocado mais grades no bero  ele brincou.
	Para qu?
	Para proteger melhor o seu beb.
	E dobraria o preo, certo?
	No, s aumentaria uns dez por cento.
	No se esquea que, entre outras coisas, sou a responsvel pela contabilidade da sua firma. Sei muito bem que tem muito lucro aqui dentro.
	No tenho tanto lucro assim.
	 verdade, estava apenas brincando. Sei que voc  um profissional muito consciencioso, algo muito raro hoje em dia.
	Nunca fui a favor de exagerar na margem de lucro.
	Pena que so poucas as pessoas que pensam como voc. Tem gente que iria cobrar o triplo pelo mesmo trabalho que voc faz.
	Isso para mim  falta de escrpulo. Mas me diga, Lya, o que ?
	No entendi.  Ela sorriu.
	Estou querendo saber se voc adotou uma garo-tinha ou um garotinho.
	Oh! Uma garotinha.
	E quanto tempo ela tem?
	Trs semanas.
	Quer dizer, ento, que a adotou quando tinha acabado de nascer. E qual  o nome dela?
	Kate.
	 um bonito nome.
	Dei a ela o nome de minha av. Meu irmo achou que era uma grande loucura. Ele me disse que, na realidade, ela no era da famlia. Mas para mim Kate , sim, da famlia. E , sim, minha filha. Eu apenas no a gerei. Mas eu a amo desde o primeiro momento que a vi.  Ela olhou para o bero.  Mas tem um problema... Nunca deveria ter encomendado o bero. Mas pode ficar tranqilo: vou encontrar um comprador para ele.  s me dar um pouco de tempo.
	Pelo que estou vendo, voc no gostou do bero.
	No  isso, Bob. Gostei, gostei muito do bero, sim.
	Mas, pelo que entendi, voc precisa dele. No venha me dizer que Kate est dormindo num colchozinho no cho.
	No, de jeito nenhum, imagine!
	E onde ela est dormindo?
	Num carrinho que me emprestaram.
	Num carrinho? Coitadinha da Kate. Como vai fazer para se espreguiar?
	Ela ainda  muito pequena. O carrinho est servindo muito bem.
	Mas logo ela vai crescer.
	Mesmo assim no vou poder ficar com o bero.
	No, esquea essa idia. Ligue para os Andersen e diga que vou me atrasar um pouco para terminar a estante. Logo vou terminar o bero. A, Kate pode dormir bem  vontade.
	Bob, acho que no entendeu. No posso ficar com o bero, no posso mesmo!  ela disse, cheia de aflio.
	Mas a garota no pode ficar dormindo no carrinho.
	O bero no vai ter a menor utilidade para mim.
	Lya, estou achando essa sua conversa muito incoerente. Se for por causa de dinheiro...
	No, o problema no  dinheiro.
	Ento, qual  o problema?
	O problema  Lya mal podia conter a dor que sentia dentro do peito , o problema  que recebi um telefonema. E vou perder a minha filhinha, Bob. E no existe nada que eu possa fazer para mant-la junto a mim.
CAPITULO II

Lya, ao dizer a Bob que ia perder a filha, comeou a soluar de novo.
	A menina est doente? O que ela tem? O que os exames disseram?
	Exames?
	Voc no me disse que recebeu um telefonema? Ela est doente, no est?
	No, Kate, graas a Deus, est tima.  Lya no conseguia conter os soluos.  E parece que est muito feliz l em casa. Quase no chora e no d o menor trabalho.
	Vamos, acalme-se  ele pediu.  Se ela est bem de sade, voc no tem com o qu se preocupar.
	Meu Deus, que situao mais difcil.
	Venha, vamos at a cozinha  Bob indicou-lhe a porta.
	No precisa. Eu estou bem.
	E vai ficar melhor se sentar.  Ele colocou-lhe a mo de leve sobre o ombro e a encaminhou para a porta.  Vou lhe preparar um caf.
	No precisa, no precisa se incomodar.
	No  incmodo nenhum.
Na cozinha, depois que Lya se sentou, ele foi at  pia e preparou a cafeteira.
	No queria causar tanto transtorno  ela se desculpou.
	Transtorno? Sobre o que voc est falando?
	Eu perdi o controle, mas acontece que estou muito tensa.
	D para perceber.  Ele ligou a cafeteira.
	E voc tem muito trabalho para fazer.
	E verdade. Mas isso no  novidade, eu sempre tenho muito trabalho.
"E pelo que pude perceber, sr. Gray, o senhor s se preocupa com o trabalho.  dia e noite trancado aqui na oficina serrando, torneando... No entendo como pode se dedicar tanto ao que faz. Ser que no tem amigos, namorada? Ser que no tem vontade de sair um pouco e ir passear? A vida, pelo que me consta, no  s trabalhar."
Bob encostou-se na pia e ficou em silncio, esperando o caf ficar pronto.
"Acho que eu o estou incomodando muito. No deveria ter falado no cancelamento do bero. Deveria ter arrumado uma outra soluo para o" problema. Meu Deus, eu no me conformo com o que est acontecendo. Eu amo tanto aquela garotinha. Amo como se ela fosse parte de mim, como se a tivesse gerado no meu prprio ventre."
Lya continuou pensando na situao difcil em que vivia. Quando o caf ficou pronto, Bob serviu uma xcara e a colocou sobre a mesa.
	Melhorou?  ele quis saber.
	Melhorei, sim, obrigada.
	Tome o seu caf.
	E voc? No vai tomar caf?
	Vou.  Ele foi at  cafeteira, tambm serviu-se de uma xcara do lquido fumegante e sentou-se  mesa junto com Lya.
	Relaxe  ele a aconselhou.
	Estou tentando. No sabe o quanto estou me esforando para ficar calma, relaxada. Mas no  nada fcil.
	Eu imagino...
	 difcil mesmo.
	Quer um leno de papel?
	No, obrigada.
	E para o caf? Quer acar ou creme?
	Prefiro beb-lo puro.
	E no vai me dizer o que est acontecendo?
	Mas  claro que sim.  Lya tomou um gole de caf, inspirou profundamente e disse:  A me da minha filha a quer de volta.
	No me diga!  Bob, incrdulo, balanou a cabea de um lado pra o outro.
	 verdade, sim.  Lya sentiu que se no se esforasse muito, iria comear a chorar de novo.
	A mulher mudou de idia?
	Mais ou menos?
	Mais ou menos, Lya? Como assim?
	Ela no quer que eu continue com Kate.
	Por qu? Voc  uma moa decente e vai ser uma tima me.
	Mas a me verdadeira de Kate acha que, pelo fato de eu ser solteira, Kate pode sentir falta de uma figura masculina. E est disposta a do-la a um casal.
	Que coisa mais terrvel.
	Para voc ver... Esse  o motivo do meu desespero. E  tambm por isso que no posso ficar mais com o bero.  Lya tomou mais um gole de caf.
	Mas isso tudo  uma grande loucura.
	A moa, o nome dela  Susy, quer que a filha tenha pai e me.
	Mas o meu sobrinho est se desenvolvendo muito bem sem a figura paterna.
	Mas Tyler tem uma figura paterna  Lya afirmou.
	Tem?  Ele a fitou espantado.  Pelo que eu saiba, minha irm no est se relacionando com ningum.
	Eu tambm acho que ela no est se relacionando com ningum.
	Ento, por que disse que o meu sobrinho tem uma figura paterna. Quem  esse homem?
	Voc, Bob. Voc  a figura paterna que Tyler adotou.
	Eu? Acho que no...
	Mas  claro que voc est funcionando como uma figura paterna para o seu sobrinho.
	Ser?  ele duvidou.
	Pode acreditar.
	Nunca tinha pensado nisso.
	Mas voc funciona para Tyler como uma figura paterna.
	Realmente eu nunca tinha pensado nisso.
Lya, de leve, passou o dedo pela borda da xcara e disse:
	No incio, a me de Kate no se incomodou pelo fato de eu ser solteira. A, de repente, o pai de Kate resolveu aparecer de novo na vida dela. O rapaz ouviu dizer que a garotinha tinha nascido e resolveu voltar. E voltou para tornar a minha vida um verdadeiro inferno!
	Ele quer a filha de volta?
	No. O rapaz diz que apenas quer conhecer a menina. E resolveu dizer  Susy que a criana precisa ser criada por um casal.
	E a moa concordou com ele?
	Parece que sim. E, pelo que entendi, ele s voltou mesmo para conhecer a filha. Mas isso fez com que velhas feridas de Susy se abrissem.
	Isso  muito ruim.
	A presena do rapaz fez com que Susy percebesse o quanto sentiu a falta dele e quanto o deseja por perto.
	E a, ela decidiu que a filha precisa viver num lar de verdade.
	 isso mesmo.
	A presena de um pai no faz a menor diferena na vida de uma criana  ele sentenciou.
	Mas nesse caso faz, sim.
	Essa garota deveria saber que voc vai criar muito bem Kate sozinha.
	Isso ela deveria saber, Bob. Mas parece que no sabe.
	E como foi que voc entrou em contato com a me de Kate? Atravs de uma agncia de adoo?
	No, no foi atravs de uma agncia. Foi um acidente.  Lya tomou mais um gole de caf.  Conheci a me de Kate no consultrio do meu ginecologista.
	E ela  muito nova?
	Muito. Kate  uma adolescente. Ela tem quinze anos, apenas quinze anos. E estava apavorada. De repente, enquanto espervamos ser atendidas, Kate comeou a falar comigo. E me contou que o namorado a obrigara a fazer .vrios testes de gravidez. Depois, quando no havia mais dvida, ele sugeriu que Susy abortasse. A garota, enfim, se abriu comigo. E foi muito difcil ouvi-la falar em aborto quando eu...  Lya fez uma pausa.  Bem, no foi nada fcil para mim.
	Quer dizer, ento, que vocs duas se conheceram no consultrio do mdico. E depois, o que aconteceu?
	Susy parece que gostou muito de mim e falou com o dr. Jonathan a meu respeito. A, talvez por alguma coisa que eu tenha comentado, ela ficou sabendo que eu no podia ter filhos. Depois de algum tempo, a garota, sem mais nem menos, decidiu que eu deveria ficar com a criana que ia nascer. Foi o dr. Jonathan quem cuidou da adoo.
	E tudo ia muito bem at o pai de Kate resolver voltar.
	Exatamente.
Os dois ficaram em silncio.
	Quer mais um pouco de caf?  ele perguntou, aps algum tempo.
	No, obrigada.  Lya passou a mo pelo rosto, num gesto aflito.  As vezes penso que tudo no passa de um grande pesadelo e acredito que, de repente, vou acordar e estar tudo resolvido. Mas esse pesadelo no tem fim.
	Mas a moa pode acabar desistindo de ter a filha de volta.
	Pode ser que isso acontea, mas eu no acredito. Meu advogado me aconselhou a estar preparada para tudo.
	Voc no est com a custdia da menina?
	Estou, mas  uma custdia provisria. E Susy ameaa no assinar os papis definitivos da adoo.
	Mas o juiz na certa...
	No, no em Michigan. Se fosse uma adoo atravs de uma agncia, no teria com que me preocupar. Mas em Michigan a adoo particular  considerada ilegal. Essa histria de leis me deixa muito confusa e no vou conseguir lhe explicar direito. O que sei  que tudo vai ter que ser feito l em Ohio.
	Por qu?
	Porque Kate nasceu em Ohio.
	Mas voc j est com a criana. Isso pode facilitar tudo.
	Antes fosse assim.
	E o que diz o seu advogado?
	Ele diz que tenho chance de ficar com Kate.
	Ento, anime-se!
	Bob, seria insuportvel para mim perd-la diante de um juiz. E no quero continuar me sentindo assim to fragilizada, to impotente. A situao que estou vivendo  insuportvel.
	Pelo que posso perceber, s lhe resta um opo: desistir logo dessa criana.
	Isso tambm  muito doloroso. Sinto como se uma faca fosse enterrada no meu peito, sempre que penso em desistir de tudo.
	Tem certeza que essa garotinha  assim to importante para voc, Lya?
	Mas  claro que tenho!
Ele pensou um pouco e disse:
	Se eu fosse voc, desistiria de tudo. J pensou? Advogados, juizes, discusses... Isso acaba com qualquer mortal; fsica, emocional e financeiramente. Acho que tem que cair fora dessa histria antes de se machucar. Voc tem que se proteger, Lya. Voc tem que se proteger enquanto ainda  tempo.
	Como pode falar assim comigo?  ela perguntou, indignada.  Voc nem me conhece direito!
	Isso que est vivendo no  o fim do mundo. Milhes de pessoas sabem funcionar muito bem sem filhos.
	Acontece, Bob, que eu no sou uma mquina! Portanto, eu no quero funcionar] Eu quero sentir. E quero que a minha'filhinha fique comigo.
	Voc, pelo jeito, quer mesmo muito essa criana.
	Claro que quero. Ser que ainda tem alguma dvida?
Bob deu um profundo suspiro e respondeu:
	Olha, Lya, no quero ficar aqui atormentando voc, mas existe a possibilidade de acabar perdendo essa criana.
	Isso seria o fim do mundo para mim. Eu morreria de infelicidade.
	Bem, no sei mais o que lhe dizer. S acho que deveria pensar melhor sobre tudo o que est acontecendo.
	E voc acha que no estou pensando? Tenho a sensao que meu crebro vai acabar fundindo de tanto pensar no assunto.
	Pois acho que deveria pensar mais ainda. Por que no volta para casa e relaxa?
	Mas eu preciso trabalhar.
	Voc faz isso uma outra hora. Agora v para casa e tente pensar friamente na situao que est vivendo.
	Sou incapaz de pensar friamente no assunto.
	Pois tente, Lya. No d para fugir de um problema como esse.  na quinta que voc volta, no ?
	.
	Pois eu vou trabalhar no bero e na quinta ele estar pronto. Traga Kate com voc. A, a gente pergunta a ela se gostou do bero.
	Oh, Bob... Muito obrigada por ter me ouvido. Na quinta-feira estarei aqui de volta.
Lya pegou Kate no colo e a aconchegou contra o peito.
	Est com frio, minha querida?
A garotinha, de olhos bem abertos, a fitava com ateno.
	No vai me responder? No vai me dizer se est com frio?  Ela beijou a testa da menina.  No, voc no est com frio. Mas garanto que logo estar com fome. Vou aprontar a sua mamadeira.
Lya voltou a colocar a criana no carrinho e foi para a cozinha.
Depois que sara da loja de Bob, tinha passado no supermercado e fora direto para casa. Precisava pensar, pensar muito no que fazer. Apesar de estar convivendo h pouco tempo com Kate, j no conseguia imaginar a vida sem ela.
A tarde, tinha ido at a creche onde deixava a garotinha e voltara para casa.
"White Star  um lugar maravilhoso para se criar uma criana. E, para os turistas, essa cidade mais parece sada de um conto de fadas", ela pensava enquanto preparava a mamadeira.
A cidade recentemente tinha sido considerada um dos locais mais agradveis do estado. L as pessoas, alm de. se divertirem muito nos inmeros bares, boates e cafs, tambm podiam fazer muitas compras. Em White Star vendia-se de tudo: desde roupas de grifes famosas, at todo tipo de artesanato. Isso sem contar com a comida: na cidade existiam restaurantes sofis-ticadssimos e tambm simples lanchonetes que se esmeravam para agradar os visitantes. As casas, muito antigas, eram todas pintadas com extremo bom gosto e abrigavam uma populao muito trabalhadora. No inverno, uma cena muito comum nas ruas eram os carrinhos, cujos donos vendiam chocolate quente e bolinhos fritos. Esses mesmos vendedores, em outras pocas do ano, vendiam flores, amendoim, sucos, ou qualquer outra coisa que pudesse agradar os turistas.
Bob havia nascido naquela cidade. Lya, no. E talvez, por causa disso, ela continuava enxergando White Star como uma turista. E adorava aquelas ruas estreitas. Mas apesar de uma maneira geral gostar muito da cidade, Lya preferia a parte mais afastada do centro. L encontrava uma paz muito grande. E tinha sido exatamente nesta parte dacidade que ela fora morar e oferecer seus servios profissionais. E acabara conseguindo trabalho que lhe rendia dinheiro suficiente para ter uma vida modesta, sem nenhum tipo de problema.
Bob, no entanto, tinha uma outra relao com a cidade. Ele a via como um morador antigo e como um homem que se esforara muito para ser reconhecido pelo trabalho que executava. E, depois de muita luta, tinha atingido o seu objetivo: os mveis que fabricava falavam por ele e j eram muito famosos. Freqentemente, recebia encomendas de outros estados. Bob caprichava em cada detalhe. E no se importava com o tempo que demorava para construir cada pea. O que importava era que ficassem perfeitas. Para Bob somente a perfeio importava.
 ... eu gosto muito de White Star e, se pudesse, passaria o restos dos meus dias aqui.  Lya fechou a mamadeira e voltou para o quarto. Kate continuava com os olhinhos bem abertos.
	Olha o que eu trouxe para voc!  Ela mostrou a mamadeira para a garotinha.  Como ? Vai continuar calada? Vai continuar me desprezando, fazendo de conta que eu no existo?
Lya deixou que um pingo do leite casse nas costas de sua mo.
	Est na temperatura exata. Tenho certeza que voc vai adorar a comidinha, minha gatinha.  Ela pegou Kate no colo e a menina bocejou.  O que foi? Est querendo dormir? Me desculpe, meu amor, mas agora voc precisa mamar. Depois a mame deixa voc dormir? Combinado?
De repente, os olhos de Lya se turvaram.
"Eu tinha prometido a mim mesma que no usaria a palavra mame aqui dentro de novo. No posso fazer isso comigo. Sei que no posso sequer pensar na hiptese de perder Kate, mas a hiptese existe. Se continuo achando que sou a me dela, a coisa pode ficar muito feia, muito difcil para mim..."
Ela colocou o bico da mamadeira junto aos lbios da garotinha. Kate, vida, comeou a mamar.
	Mas  assim que eu me sinto: como me de Kate. Ela  a filha que nunca vou ter. E a maternidade sempre foi muito importante para mim. Desde que me conheo por gente, queria ter uma coisinha linda como essa para criar.  Ela sorriu para a criana.  E sempre soube que seria uma excelente me. Gosto da maternidade. Gosto de saber que poderei contribuir para um mundo melhor, criando um cidado decente.
Kate soltou o bico da mamadeira.
	O que foi? Se ofendeu por eu ter chamado voc de cidado? Tudo bem, tudo bem, no precisa ficar brava. Eu mudo a frase, certo? Vamos l: gosto de saber que poderei contribuir para um mundo melhor, criando uma cidad decente! E ento, Kate? Melhorou? Certo. Eu ouvi o que voc disse: a frase melhorou.  Ela voltou a colocar o bico da mamadeira na boquinha da menina.  Mas  verdade. O mundo s vai melhorar se todos os pais estiverem preocupados em criarem cidados de verdade. No d mais para viver num mundo onde tudo  considerado descartvel. Mas no d mesmol Lya continuou conversando com Kate e se esforando para, pelo menos naquele momento, no pensar na ameaa que pairava sobre elas.
No dia seguinte, depois de deixar Kate na creche, Lya foi para o outro emprego que tinha, numa rua muito prxima de onde morava. Era uma loja de cosmticos, onde tambm cuidava de toda a contabilidade.
A noite, depois de ter colocado Kate para dormir, o telefone tocou. Era o advogado. Kate, pelo tom da voz dele, logo percebeu que as novidades no eram nada boas.

CAPITULO III

Um pouco antes das oito horas, Lya j estava se dirigindo para a Station. No banco de trs, dormindo numa cadeirinha prpria para beb, Kate lhe fazia companhia. E Lya no se sentia nada feliz. Depois da conversa que havia tido com o advogado, sua tenso aumentara muito e s conseguira dormir s duas da manh, para acordar s cinco.
Lya, com Kate nos braos entrou na loja e se encaminhou para a porta da oficina.
	Bob?  ela chamou.
Mas ele, atento ao que fazia, no" a escutou. Lya, ento voltou a cham-lo. Desta vez, Bob ergueu o olhar e disse:
	Oi, j est a? No ouvi voc chegar.
	Como sempre, no?
	Voc tem razo. Quando mergulho no trabalho no ouo nem vejo nada. Mas entre, entre!
Lya entrou na oficina.
	E ento? O que achou?  Bob, orgulhoso, apontava o bero.
	Ele ficou muito bonito.
	Vamos, pode ser sincera.
	Mas estou sendo sincera.
	Mas no vai fazer nenhuma crtica?
	Crtica?  ela perguntou espantada.  Por que deveria fazer alguma crtica? O trabalho, para mim, ficou perfeito. O bero  muito bonito.
	Poderia ter ficado melhor.
	Voc  perfeccionista demais, Bob. Sempre diz que o seu trabalho poderia ter ficado melhor.
	Acontece que, depois de pronto, fico tendo outras idias e...
	Acredite: o bero est belssimo  ela o interrompeu.
	E o colcho? Gostou dele?
	Muito. Mas, pelo que eu sei, quando algum encomenda um bero, o colcho no est includo.
	Mas este bero  um caso especial.  Ele abaixou-se e abriu uma das duas gavetas que ficava na parte de baixo do bero e pegou uma embalagem de plstico.  Isso tambm  para voc.
	E o que  isso?  Lya quis saber.

	Um travesseirinho, uma fronha e dois lenis. Mas acho que deveria ter comprado de outra cor.
	Por qu? Gosto muito de cor-de-rosa.
	Beth me disse que na certa iria ficar muito brava.
	Brava? No entendi...
	Bem, minha irm me disse que, hoje em dia, no  l muito correto uma recm-nascida usar cor-de-rosa. Que isso  muito sexismo. Disse tambm que, hoje em dia, as mulheres esto ensinando aos garotos a serem mais suaves e as meninas a serem mais agressivas.
	No se preocupe com isso. Kate tem vrias roupinhas cor-de-rosa.
	E azul? No comprou nada para ela na cor azul?
	Comprei, sim. Portanto, pode parar de se preocupar.
	Mas me diga: aconteceu alguma novidade?
	A que est se referindo, Bob?
	A adoo.
	Bem, ontem  noite recebi um telefonema do meu advogado. Susy entrou com o pedido de custdia.
	E voc? 
		Dormi muito mal esta noite. A minha preocupao aumentou muito.
	No  para menos.
O telefone tocou.
	Pode deixar que eu vou atender  ele disse e foi para a sala da frente.
"Ele agiu como se Kate no estivesse nos meus braos. Esse Bob Gray  muito estranho. No lugar dele, eu teria agido de outra maneira. Ser que ele no gosta de criana?"
	Era engano  Bob voltou para o oficina e se aproximou de Lya.  E ento? No vai me apresentar a moa?
	Claro que sim  ela respondeu aliviada.
	Meu Deus! Como ela  cabeluda.
	 cabeluda, sim.  Lya puxou o lenolzinho para que Bob pudesse ver melhor o rosto de Kate.  Ontem, tentei colocar um pequeno lao de fita no cabelo dela, mas s parou uns dois minutos.
	Ela deve ter ficado o mximo com um lao de fita na cabea. De que cor era a fita?
	Cor-de-rosa.
	Ah...  Ele disse com uma certa satisfao.
	No vem me dizer que ainda est preocupado com o que a sua irm lhe disse.
	No  que eu estivesse preocupado, mas fiquei meio apreensivo.
	E o que achou de Kate?
	Realmente ela  uma beleza de criana.
Lya sorriu satisfeita.
	Me disseram que esse cabelo vai cair e depois vai nascer outro.
	E mesmo? E uma pena. Bem, vou levar o bero para a loja. S v para l quando eu a chamar.  Com extrema facilidade, Bob ergueu o bero e o levou para a loja.
"Esse homem  mesmo muito estranho. E  bem mais inseguro do que eu poderia imaginar. O bero ficou perfeito e ele acha que poderia ter ficado melhor. Isso  perfeccionismo demais para o meu gosto.
	Pode vir!  Bob gritou.
Lya foi para a loja e sorriu ao ver o que Bob havia feito.
	Mas ficou timo! Jamais imaginei que soubesse arrumar um bero!
	Voc gostou mesmo dos lenis?
	Claro que sim. E veja: combina muito bem com o tom da madeira.
	Eu tambm gostei muito.
	Pena que a moa aqui no possa opinar.  Ela olhou para a garotinha.  Tenho certeza que ela tambm iria adorar.
	Pois aceite isso como um presente.
	O qu?
	O bero.  um presente meu para voc, Lya.
	Bob, eu...
	Por favor, aceite. E um presente.
	Se  assim...  Lya estava muito sem jeito.
	Agora vamos testar.
	O que voc quer testar?
	O bero. Coloque Kate dentro dele para a gente ver como  que fica.
	Claro...  Com muito cuidado, Kate colocou a garotinha no bero.  Pronto.
	A dentro ela fica bem menor.
	Fica mesmo. Eu vivo chamando Kate de chaveirinho, de to pequena que ela . Mas a no bero ela, de fato, fica bem menor.
	Ser que Kate est com frio?  Bob perguntou preocupado e, em seguida, abriu a outra gaveta do bero.  Pronto. Agora, com toda certeza a mocinha no sentir mais frio.
	Mas o que  isso?  Lya perguntou a v-lo com um outro saco plstico nas mos.
	Ontem tive que fazer umas compras. Quando me deparei com essa manta de l, no pude resistir.  Ele mesmo abriu o saco plstico, pegou a manta e cobriu Kate.
	Voc tem atitudes que me surpreendem, Bob.
	Bem, agora vou voltar ao trabalho.  Completamente sem jeito, ele voltou para a oficina.
Ao se ver sozinha com Kate, Lya ajeitou melhor a manta sobre ela e, em seguida, pegou alguns livros que precisava verificar.
"No podia ter recusado esses presentes. Se fizesse isso, tenho certeza que Bob iria se ofender. Mas, realmente, no esperava que ele me desse o bero e essas roupinhas todas..."
J fazia meia hora que Lya estava trabalhando. Kate, no bero, estava profundamente adormecida. De repente, a porta da loja se abriu. Era Beth.
	Quer, dizer, ento, que essa  a sua filha?
Beth, de cabelos longos, loiros, era muito parecida com Bob.
	 ela mesma!
	Mas ela  linda, Lya. Parece um anjo.
	Obrigada, Beth. E o Tyler, onde est?
	Acabei de deix-lo na escola e vim correndo para c. Estava louca para conhecer Kate. Sabe que ela parece um pouco com voc?
	Mas os meus cabelos so castanhos.
	Estou me referindo ao nariz, ao formato do rosto. Ela realmente  muito parecida com voc.
	Fico feliz em saber. O Tyler tambm  muito parecido com voc.
	E mesmo.
	E ele, como est?
	Cada vez mais malandro. Hoje pela manh, no queria vestir o uniforme da escola. Sabe o que ele queria vestir?
	No.  Lya sorriu.
	O roupa do Super-Homem.
	E voc? O que fez?
	Acabei aprontando a maior briga com ele.
	E ele vestiu o uniforme da escola?  Lya perguntou curiosa.
	Mas  claro que vestiu. Mas primeiro tive que ter uma longa conversa com o meu filho.
	Meu Deus... Essas crianas de hoje so terrveis.
	Logo, logo elas vo nascer falando. No acha que o meu filho est se tornando muito malandro?  Beth deu uma risada.
	Est, sim.
Naquele instante, Bob entrou na loja.
	Oi, maninho.
	Oi, Beth. Mas me diga: o que voc est fazendo aqui?
	Vim conhecer Kate.
	Mas, pelo que estou sabendo, seu curso comea hoje.
	Curso?  Lya perguntou feliz.  Voc voltou a estudar?
	Vou comear aprender um pouco de informtica. E isso foi idia do meu maninho. E ele quem vai me pagar o curso.
	Mas isso  muito bom, Beth. Tenho certeza que com esse curso vai acabar encontrando um excelente trabalho.
	E o que espero.
	E como est o Tyler? No o vejo h desde ontem cedo.
	Seu sobrinho est timo.  E Beth contou ao irmo o que havia acontecido naquela manh. Depois, resolveu contar uma outra histria que havia acontecido no dia anterior. Quando terminou, perguntou:  Meu filho no  mesmo o mximo?
	O Tyler  um menino muito esperto.
	Esperto? Tenho certeza que logo, logo ele vai me deixar maluca, Lya.  A garota olhou para Bob.  Estou precisando um favorzinho seu.
	E que favorzinho  esse?
	Gostaria que me construsse uma jaula.
	Uma jaula?  Bob no tinha entendido o porqu daquele pedido.
	E, uma jaula! E com grades bem reforadas!
	E o que voc vai fazer com uma jaula?  Bob, preocupado, quis saber.
	Vou trancar o seu sobrinho dentro dela. Aquele garoto est ficando impossvel!
	Voc  maluca, Beth!
	Mas essa  uma grande idia, no acha?  Beth deu uma gargalhada.  Do jeito que ele est ficando voluntarioso, s uma jaula resolveria a minha situao.
	Uma criana, para se desenvolver, precisa ter todo espao possvel e ser tratado com muita pacincia pelos adultos  Bob afirmou.
	E tambm precisa de algum ao lado dela o dia inteiro.
	Isso faz parte da vida.
	 verdade, maninho, mas queria ver voc tomando conta do seu sobrinho. Tambm ia acabar pensando numa jaula  Beth o provocou.
	Uma criana precisa ser muito respeitada.
	E a me da criana? Ser que tambm no merece respeito?  Beth continuava com a provocao.  E eu que estava pensando que pudesse criar um novo homem, uma criana meiga, delicada... No adiantou nada eu ter comprado para Tyler vrias roupas cor-de-rosa assim que ele nasceu.
Lya estava rindo da maneira que Beth falava com Bob. Ele, por sua vez, estava levando muito a srio a conversa.
	Voc tem que ter pacincia com o garoto, Beth 	ele aconselhou.
	Pacincia eu tenho, maninho. O que eu no tenho  sade. Afinal, estou ficando velha, logo vou completar vinte e cinco anos.
	E voc acha que vinte e cinco anos  uma idade to avanada assim?
	Para cuidar de um garoto como o seu sobrinho, estou me sentindo uma anci.
	No estou gostando nada dessa conversa.
	Tive um idia: sempre que possvel, vou trazer  Tyler aqui para ele ajud-lo.
Bob no respondeu nada. Apenas mordeu o lbio inferior.
	Viu s?  Beth voltou a dar uma gargalhada. 	Ficou assustado, hem?
	No, eu no fiquei assustado. S que uma marcenaria no  lugar para uma criana to nova. Mas quando ele crescer mais, ficarei muito feliz em poder ensinar a minha profisso a ele.
	Eu adoraria que fizesse isso. A, poderia parar de trabalhar bem mais cedo do que estou imaginando.
	Beth virou-se para Lya e perguntou:  Sabia que meu irmo trabalhou feito um doido para poder aprontar o bero hoje? Quase no consegui dormir  noite, tamanho o barulho que ele fazia.
	Beth, o que  isso?  Existia repreenso na voz de Bob.
	E ser que estou mentindo? E a mais pura verdade, Lya.
	Eu tinha que terminar o bero. Kate estava dormindo num carrinho.
	E agora ela est dormindo no bero mais bonito que existe em Michigan!  Beth deu um beijo no rosto do irmo.  Voc  o melhor marceneiro que eu conheo.
	Pelo que sei, voc no conhece mais nenhum outro marceneiro.
	Por isso mesmo, querido.  Beth deu um outro beijo no rosto de Bob.  Por isso mesmo, voc  o melhor que eu conheo.
Lya, ao ver o rosto contrariado de Bob, sentiu muita pena dele.
	Voc no acha, Lya, que meu irmo  o melhor marceneiro que voc conhece?
	Acho. Acho, sim. Ele  um excelente profissional.
	E voc conhece outros marceneiros?  a garota quis saber.

	Vrios. E realmente nunca encontrei nenhum como Bob.
	Viu s que elogio, maninho? Com toda certeza voc no vai dormir  noite de tanta satisfao.
	No seja boba, Beth.
	No estou sendo boba  a garota se defendeu, com um sorriso nos lbios.  Apenas estou dizendo a verdade.
	No sou to bom marceneiro assim.
	Mas  claro que !  Beth falou num tom mais alto de voz e completou:  Voc  o melhor que eu conheo!
	No v comear tudo de novo, Beth  Bob pediu.
	No, chega de brincadeira. Se continuar brincando com voc, com toda certeza vai construir uma jaula para mim.
Beth voltou a se aproximar do bero.
	Mas ela parece mesmo um anjo.  A garota se inclinou para beijar o rostinho de Kate. E que perfume... A mocinha tem um cheiro delicioso.  alguma loo, Lya?
	No,  um sabonete infantil que comprei numa loja ontem.
	Voc precisa me dar o nome da loja e do sabonete. Tambm quero o meu filho bem cheirozinho. Mas me diga: teve notcia da me da Kate?
	O advogado me telefonou ontem para me avisar que ela entrou com o pedido de custdia.
	Isso  muito ruim. Meu Deus, por que ser que essa moa foi mudar de idia?
	Susy  praticamente uma criana. E est querendo que Kate seja criada por um casal.
	Mas isso  uma grande besteira dessa garota. Tenho certeza que voc criaria muito bem esse anjinho sozinha.
	Eu tambm acredito nisso, mas...
	Voc no pode desistir, Lya. Tem que lutar pela Kate at o fim. Essa criana merece o melhor. E acredite em mim: a felicidade de uma criana no est no fato de ser criada por um casal.
	A Beth tem toda razo  Bob concordou.
	No se sinta culpada por ser solteira  Beth aconselhou.  Afinal, existem milhes de casais que no deveriam sequer pensar em colocar uma criana no mundo. O que uma criana precisa  de muito amor.
	 verdade...  Bob voltou a concordar.
	Por que no telefona para Susy? Tente convenc-la que Kate ficar muito bem com voc. Diga a ela que j a ama como se fosse sua filha.
	No sei, acho que ela jamais iria me ouvir.
	Ento, Lya, por que no arruma um marido? Se voc se casasse, tudo iria ficar bem mais fcil. Nenhum juiz iria lhe negar a adoo.
	No acho essa idia razovel, Beth. No posso ir me casando assim, sem mais nem menos. Casamento  um passo muito srio.
	Adoraria poder ajud-la, Lya. Mas no tenho a menor noo do que fazer. Se essa moa morasse aqui, poderia tentar falar com ela...
	Susy  muito imatura, ela  mesmo uma criana.
	Bem, j vou indo.  Beth deu um beijo no rosto de Lya e depois foi beijar o irmo.  Estou torcendo para que tudo d certo.
	Obrigada, Beth, voc  um amor de pessoa.
	Voc tambm  um amor de pessoa. Voc no acha que Lya  um amor de pessoa, Bob?  Beth perguntou com um sorriso nos lbios.
	Claro. Claro que sim.
	Eu sabia!  Beth saiu e um enorme silncio pairou sobre Lya e Bob.
	Bem, vou voltar ao trabalho. Se precisar de alguma coisa  s me chamar.
	Obrigada, Bob.
Ao chegar em casa naquele dia, Lya estava muito confusa. Em um dado momento, durante a conversa que tivera com Beth e Bob, uma idia lhe passara pela cabea. E agora a idia passara a atorment-la:
	Afinal, Bob e eu somos solteiros. Se ele se dispusesse a me ajudar, talvez tudo estivesse resolvido.
 Aflita, ela passou a mo pelo rosto.  No, isso  loucura. No d, no d mesmo!
Lya foi at o quarto para ver se Kate estava bem. Depois se dirigiu ao banheiro e ligou o chuveiro. Aps ter se despido, entrou sob a gua quente e continuou falando sozinha:
	Mas se eu no fizer o impossvel, no vou conseguir ficar com Kate. E isso  o pior que pode me acontecer. No quero e no posso me separar de Kate. Se eu tivesse a garantia de que ela poderia ter uma vida melhor daquela que posso lhe proporcionar, at pensaria em me conformar com a idia de perd-la. Mas quem garante que o casal que adot-la pode faz-la feliz? Quem me garante que essas pessoas tero mais amor do que eu para dar a ela? No, eu no posso renunciar, tenho que lutar. S que, por mais que tente me convencer do contrrio, sei que  uma luta que j est praticamente perdida.
Lya terminou o banho, vestiu uma roupa bem quentinha e voltou para o quarto.
 Como eu gostaria de dormir assim, com tanta tranqilidade...  Ela fez uma leve carcia no rostinho de Kate.  Se soubesse como eu adoro voc, minha querida...
Com lgrimas nos olhos, Lya foi para a cozinha preparar a mamadeira de Kate. E, de repente, comeou a rezar, comeou a pedir a Deus que a iluminasse e lhe indicasse um caminho para que pudesse ficar para sempre com a filha.
CAPITULO IV

O local onde Bob morava ficava sobre a Station. Era um apartamento amplo, aconchegante e todos os mveis ali tinham sido construdos por ele.
No pequeno escritrio, onde sempre permanecia quando precisava desenhar uma nova pea, para depois constru-la na oficina, ele tentava se concentrar. Mas no estava nada fcil. A situao que Lya vivia o estava deixando muito preocupado. A possibilidade de ela acabar perdendo a criana era muito grande. Aquilo no lhe parecia justo. Lya sempre havia se mostrado muito responsvel e, com toda a certeza, iria criar muito bem uma criana. Mas ela era solteira e aquele simples fato poderia destruir-lhe toda a iluso de ser me. E a maternidade, a possibilidade de gerar e criar um filho se mostrava muito importante para a maioria das mulheres. Para Lya, a possibilidade de gerar tinha sido descartada. Mesmo assim, criar uma criana continuava sendo vital para ela.
"As leis deveriam ser diferentes. Mesmo solteira, Lya deveria ter o direito de criar um filho. O argumento de a criana no ter uma figura paterna, para mim no se sustenta. Que figura paterna eu tive? Meu pai, apesar de trabalhar muito, vivia o tempo todo bebendo. E aquilo causava a infelicidade da minha me, da Beth e a minha.  noite, j totalmente alcoolizado, ele saa da oficina e ia para os bares. Nos finais de semana era a mesma coisa. Quando voltava para casa, sempre falava muito, brigava com todos ns e a gente se sentia humilhado, sem perspectiva de vida. Porm, apesar de tudo, era um bom marceneiro. Se no fosse por causa da bebida, teria sido o melhor. Mas ele precisava beber, beber compulsivamente. No, no vale a pena para uma criana ter uma figura masculina como o meu pai. Minha me, sozinha, teria nos criado muito melhor..."
Perdido em pensamentos, Bob olhou para o desenho inacabado que tinha diante de si.
"Mesmo assim a gente o amava e nos preocupvamos com ele. Minha me morria de medo que morresse de cirrose e fez de tudo para que abandonasse o alcoolismo. Porm, nada do que ela fez adiantou. E Joe Gray acabou morrendo atropelado por um carro..."
Bob deu um profundo suspiro. Dentro do peito abrigava muita mgoa com tudo o que tinha lhe acontecido. E tinha sido por causa disso tudo que se tornara um homem silente, um homem de poucas palavras. A vida havia lhe ensinado que os sentimentos precisavam ficar trancados no peito e que s o trabalho aliviava as dores sem soluo. Por isso ele trabalhava muito, o tempo todo. Por isso para ele s existia um meio de escapar  dor: trabalho, muito trabalho!
"No caso de Kate e de outras crianas, querem que tenham um pai de verdade. E o que  um pai de verdade? Aquele que se dedica a s ganhar dinheiro para comprar tudo o que existe nas vitrines das lojas? No, isso no  um pai de verdade. As crianas de hoje, a grande maioria delas, esto sendo enganadas. Seus pais perderam a capacidade de amar e, no lugar de amor, esto lhes dando presentes. Uma hora  uma cala de grife famosa, outra hora  um skate, um brinquedo eletrnico. Isso no  justo. Uma criana precisa de amor, afeto e muita dedicao. Hoje, infelizmente, a maioria das pessoas no sabe o que isso significa. Tenho certeza que por causa disso, por essa falta de amor,  que muito cedo as crianas de hoje esto precisando freqentar os consultrios de psiclogos. Nada substitui o amor e a dedicao. Nada."
Bob voltou a olhar para o desenho que tinha diante de si.
	Acho que hoje no estou muito inspirado.  Ele, em seguida, olhou para um porta-retrato que estava sobre a escrivaninha.  Lya foi muito gentil em ter me presenteado com esse porta-retrato. Como ela mesmo disse, jamais me preocuparia em ter um, onde pudesse colocar as duas fotos minhas que saram no jornal, junto com a reportagem que fizeram sobre mim no ms passado.
Numa das fotografias, Bob, com um formo, trabalhava um pedao de madeira. Na outra, aparecia com um cinzel nas mos, dando acabamento na porta de um guarda-roupa.
"Ela foi muito gentil em ter me presenteado. O presente deve ter sido por causa d bero..."
Bob, vendo que no conseguiria terminar o desenho, resolveu ir para o oficina. No instante em que ia comear a trabalhar, ouviu a porta da frente se abrindo.
	 voc, Lya?
	Sou eu, sim  ela respondeu, num tom de voz baixo.
Preocupado, Bob foi at  loja e viu que Lya estava com a criana nos braos.
	Me desculpe por ter trazido Kate, mas ela est meio resfriadinha.
	Tudo bem.
	Tem certeza que est tudo bem?
	Est, sim. S no sei onde vamos poder coloc-la.  Ele pensou um pouco e disse:  Espere um pouco. Eu j volto.
Bob subiu a escada que ligava a oficina a sua casa e instantes depois voltava com uma cesta de vime nas mos.
	Acha que a garota cabe aqui?
	Mas  claro que cabe. A cesta  bem grande.
	Eu a comprei h muito tempo para ajudar um arteso.
	Ela  muito bonita.
	Acho que podemos coloc-la ali sobre aquela cama de casal.
	 uma boa idia.
Quando Kate j estava acomodada, Bob voltou para o trabalho. Meia hora mais tarde, Lya entrava na oficina.
	Ser que posso ir l na cozinha fazer um ch para Kate?
	Sinta-se  vontade. Se quiser usar a cozinha de cima...
	No, eu fao o ch aqui embaixo mesmo.
Mal Lya tinha entrado na cozinha, Kate comeou a chorar. Preocupada, ela foi ver o que estava acontecendo e voltou para a cozinha com a criana nos braos. Dez minutos depois, com Kate adormecida, ela deixava a cozinha.
"Pelo jeito, hoje  um dia que no vou conseguir trabalhar", Bob constatou em pensamento. "E ainda tem o Tyler que logo vem para c ficar comigo. Bem que Beth poderia ter desmarcado a hora do dentista. Afinal, faz dois dias que ficou sabendo que o garoto no teria aula hoje..."
Meia hora mais tarde, Tyler entrava na oficina.
	Tio Bob, minha me disse que voc ia fazer um sanduche para mim.
	E onde est ela?
	Minha me j foi para o dentista.
	Certo, garoto! Vamos fazer o sanduche.  Os dois foram para a cozinha.  Gostou do seu quarto novo?
	Gostei.  Beth e Tyler moravam numa pequena casa que ficava nos fundos da oficina.  Mas eu quero peixinhos.
	Peixinhos?  Bob comeou a preparar o sanduche para o garoto.  E os peixinhos vo ficar fora d'gua?
	No, assim eles morrem.
	Bem, ento voc tambm quer um aqurio.
	Quero.
	Se tudo der certo, no final do ms a gente compra o aqurio e os peixinhos.
	Eu queria hoje.
	Hoje no vai dar, garoto.
	Por qu?
	Porque para comprar os peixinhos eu preciso trabalhar e ganhar dinheiro.
	Mas voc tem dinheiro no banco, tio Bob.
	E quem lhe disse que eu tenho dinheiro no banco?
	Eu  que sei.  O menino deu de ombros.
	Mas o dinheiro que eu tenho no banco  para uma emergncia. E comprar um aqurio com vrios peixinhos no  uma emergncia.
	E o que  uma emergncia?  Tyler quis saber.
	Bem, emergncia  algo que acontece quando a gente no est esperando.
	Sei...
Era dessa maneira que Bob tratava o sobrinho. Com muito carinho, mas colocando sempre limites. No dava para fazer tudo o que o garoto queria. Ele precisava saber, desde cedo, que na vida no se conseguia tudo assim, de repente, na hora que a gente bem entendesse.
Quando Beth havia engravidado, Bob tinha ficado muito chateado. Mas ela amava o namorado e os dois resolveram se casar. Depois, um ms aps o casamento, no quarto ms de gravidez Linus, o marido de Beth, havia falecido. A morte surpreendera a todos, inclusive os mdicos. O rapaz tinha uma doena gravssima no corao, uma doena congnita, e jamais se dera conta.
Ao ver a irm to nova, desamparada e grvida, Bob prometera a si mesmo que nada faltaria a ela e nem  criana que estava para nascer. No queria que o sobrinho, nem de longe, passasse pelas privaes que ele mesmo havia passado.
	Por que voc tem duas cozinhas, tio?
	Porque fica mais fcil para mim quando estou trabalhando aqui embaixo.
	Mas  s subir a escada.
	Eu sei, mas preferi ter duas cozinhas.
	Na minha casa s tem uma cozinha.
	E voc quer outra?
	No, aquela est boa.
Bob terminou de fazer o sanduche e o entregou ao garoto.
	Quer tomar um copo de leite?
	No, tio, j tomei o meu leite.
	E frutas? Voc j comeu frutas?
	No gosto muito de frutas. Eu gosto de chocolate.
	Chocolate...  Bob teve vontade de rir, mas manteve-se firme.  Chocolate logo de manh?
	Eu gosto de chocolate  Tyler voltou a dizer.
	Eu tambm gosto, mas no d para ficar comendo chocolate a todo instante.
	Minha me sempre diz a mesma coisa.
	E ela est certa.
	Tio?
	O que foi?
	Depois voc v a minha lio de casa?
	Quer que eu faa isso hoje?
	Quero.
	Certo. Termine de comer seu sanduche e depois v pegar o caderno. Agora eu vou voltar para o meu trabalho. Tem certeza que no quer um copo de leite?
	Eu queria um chocolate.
	Agora no  hora de chocolate...  Bob passou a mo pela cabea do garoto e voltou para a oficina.
Em torno das onze horas, Lya foi conversar com Bob.
	Pelo jeito, Kate se acalmou  ele disse, atento ao que fazia.
	... Agora ela est bem quietinha. Mas acho que fiz uma coisa que no deveria ter feito.
	Algo muito grave?
	Bem, como Kate no dormiu bem  noite e estava chorando muito, resolvi ligar para a me dela.
	Por que voc fez isso?
	No sei, acho que me senti culpada e pensei que talvez a me verdadeira pudesse acalm-la.
	Todas as crianas choram, sabia?
	Claro que sim. Mas eu fiquei mesmo muito apavorada. Fiquei pensando que, talvez, se ela ficasse com Susy, Kate estaria melhor. Afinal, eu no sou a me dela.
	Voc no deveria ter feito isso. Ningum cuidaria melhor de Kate. Nem a me verdadeira dela.
	Pode ser, mas mesmo assim-acabei marcando um encontro com a Susy.
	Um encontro?  Bob estava perplexo.  E o que, afinal, est pretendendo conversar com a moa?
	Foi ela quem sugeriu que nos encontrssemos. Eu relutei um pouco, mas acabei aceitando.
	No deveria ter feito isso, Lya.

	Eu j me arrependi. Mas tenho que ir a esse encontro.
	Bem, a deciso  sua...
	Tenho a esperana de conseguir fazer com que ela desista de tudo.
	Se  assim, tente. Quem sabe d certo?
	Voc no acredita, no ? No acredita que ela vai acabar desistindo de tirar Kate de mim?
	Estou achando essa possibilidade extremamente remota.
Depois de um longo silncio entre os dois, Lya perguntou:
	Posso lhe pedir um favor?
	Mas  claro que pode.
	Daria para me acompanhar a esse encontro?
	Eu?  Ele estava muito espantado.
	Estou precisando de companhia, Bob. No conseguiria falar sozinha com Susy.
Lya e Bob estavam sentados  mesa de um restaurante.
	Ser que ela vem?
	Calma, Lya.
	Est difcil manter a calma.
	Como ela ?
	Quem?  Lya o fitou meio desentendida.
	A Susy. Como ela  fisicamente?
	Linda: alta, loira, de olhos bem azuis. Parece uma princesa.  Lya abaixou a cabea e continuou:  Ser, ser que no seria melhor para Kataser criada pela prpria me?
	Mas ela disse que no pode criar a menina, no disse?
	Disse.
	E ento? Por que essa conversa agora?
	No sei, estou me sentindo muito confusa. Me sinto uma negao como mulher. Me sinto uma mulher incompleta.
	S porque no pode gerar um filho?
	S?  Ela o fitou um tanto agressiva.  E acha isso pouco?
	Acho que j lhe disse que me  aquela que cria uma criana.
	Eu sei, mas na prtica  diferente. Se pudesse gerar um filho meu, no estaria vivendo essa situao.
	Se hoje algum chegasse e lhe dissesse que pode gerar um filho, voc desistiria de Kate?
	De maneira nenhuma. Para mim ela  minha filha.
	Ento, pare de pensar besteira. Pare com essa histria de se sentir uma mulher incompleta. Voc  uma pessoa cheia de qualidades.
	... Sou uma pessoa cheia de qualidades que no pode gerar um filho.
	Por que, para vocs mulheres,  to importante assim gerar um filho?
	No sei lhe explicar. E algo muito pessoal. Nenhuma palavra que eu diga vai explicar a sensao de vazio que sinto dentro do peito.
Os dois continuaram conversando e no perceberam quando Susy entrou no restaurante.
A garota se aproximou da mesa onde os dois se encontravam sentados e disse, com uma certa timidez:
	Lya?
Lya levou o maior susto.
	Susy? Como vai voc? No a vi entrando.
	Eu percebi, voc estava muito entretida conversando com...
	Bob  Lya completou-lhe a frase.  Bob Gray. Ele  um grande amigo. Bob, est  Susy, a me de Kate.
	Muito prazer, Susy. Por favor, sente-se.
	Voc  advogado?  a moa perguntou preocupada.
	No, no sou advogado.
	Bob s veio para me fazer companhia, se quiser que ele saia para podermos conversar...
	No, ele pode ficar. Voc no trouxe o beb?
	No, a irm de Bob ficou tomando conta dela.
	Que pena... Meu namorado me emprestou o carro para que eu viesse at aqui. Trouxe vrios presentes para Kate.
	Sinto muito, no pensei que quisesse v-la.
	Quero, sim. E como est ela?
	Forte e saudvel. Hoje ela est meio resfriadinha.
	E Kate engordou?
	Engordou, sim. O pediatra, na semana passada, ficou espantado com o desenvolvimento dela. Tenho alguns fotografias de Kate aqui comigo. Quer v-las?
	Quero, quero, sim.
Trmula, Lya abriu a bolsa e entregou vrias fotografias  Susy.
	Mas ela est linda! Onde voc tirou as fotografias?
	No quarto.
	Kate tem um quarto s para ela?
	Tem, sim.
	Que maravilha! Minha filha, que acabou de nascer, tem um quarto s para ela. E eu, com quinze anos, nunca tive um s para mim.  Susy agora olhava uma outra fotografia.  E essa manta? Quem deu para ela? Que coisa mais linda!
	Foi um presente de Bob.
	Que presente mais lindo! E esse bero? Onde foi que voc arrumou?
	Tambm foi um presente do Bob. Ele mesmo fez o bero.
	Voc fez um bero lindo como esse?  a garota perguntou, espantada.
	Fiz, sim. Eu fao mveis.
	Pelo jeito a minha filha  muito amada por vocs todos  Susy disse com muita tristeza.
	De fato, ela  muito amada por todos ns.
	Mas ela saiu da minha barriga,  minha filha.
	Claro que   Lya sentiu um n na garganta.  E estou muito feliz por voc ter deixado que ela ficasse comigo.
	Gostaria de poder cri-la. Gostaria de poder v-la crescer. Mas no tenho a menor condio. Mesmo assim, me sinto muito culpada por ter me separado dela.
Susy voltou a rever as fotografias.
	Ela  mesmo uma gracinha... Voc sempre tira fotografia dela?
	Sempre. E assim que acaba o filme, mando revelar. Tem um fotgrafo bem ao lado da minha casa.
	Voc me d uma dessas fotografias?
	Mas  claro que dou. Se quiser, pode ficar com todas.
	Obrigada.  Susy beijou uma das fotos.  Voc sabia que meu pai voltou a morar com a minha me?
	No, eu no sabia.
	Pois ele voltou. E disse que agora nunca mais vai embora.
	Seu pai sabe sobre Kate?
	Sabe, eu contei para ele.
	 mesmo?  Lya continuava muito trmula.  Que reao ele teve?
	Meu pai no gostou nada de saber que eu tive Kate, mas no fez muito escndalo. S que ele me disse que no vai dar para a gente cri-la.  Susy deu um profundo suspiro.  Eu estive pensando muito em ficar com ela, sabe? Mas a gente  muito pobre. Minha filha no teria uma vida-boa, confortvel. Mas meu pai tambm me disse que no d para Kate ficar com uma mulher solteira.
	No acha que estou cuidando bem da Kate?  Lya perguntou, aflita.
	Est, est, sim. Mas uma criana tambm precisa de um pai.
	Ser que precisa mesmo?  Bob perguntou, com bastante ceticismo.
	Precisa. Se meu pai tivesse ficado sempre com a minha me, tenho certeza que a minha vida hoje seria diferente. Uma criana precisa de uma famlia.
	Mas Kate e eu somos uma famlia  Lya protestou.
	No  a mesma coisa.
Lya estava ficando desesperada. E viu que nada, nada que dissesse  Susy iria demov-la da idia de que Kate precisava de um pai.
	E preciso resolver logo essa situao.
	Susy, eu...
	No posso imaginar minha filha sem um pai  Susy interrompeu Lya e comeou a chorar.   muito ruim no ter um pai sempre presente. Vou ter mesmo que d-la a um casal.
	Meu Deus...  Lya sentiu que no tinha mais argumento para convencer a garota que Kate seria muito feliz ao lado dela.
	Susy, quanto a isso voc no precisa ficar preocupada. Sua filha vai ter um pai  Bob afirmou.
	Vai?  a garota olhou para ele meio desentendida.
	Vai, sim.
	Quem? Quem vai ser o pai da minha filha?
	Eu. Eu vou ser o pai de Kate.
CAPITULO V

Ao ouvir aquilo, Lya estremeceu. 
 Voc e Lya...  Susy olhou para os dois meio desconfiada.  Vocs vo se casar?
	Ns somos muito bons amigos. E estarei sempre por perto quando Kate precisar de mim.
	No pensei que fossem to amigos assim.
	Mas ns somos muito amigos. Lya, inclusive, trabalha para mim.
	E por que ainda no se casaram?
	Porque estamos muito satisfeitos com a relao que temos.
	E por que voc no me disse isso antes, Lya?  a garota perguntou.
	Lya no queria comentar nada com ningum.  Foi Bob quem respondeu com muita tranqilidade.  J foi um choque muito grande para o irmo dela saber que adotou uma criana.
Lya sentia que, a qualquer momento, poderia des-falecer, tamanho era o nervosismo que estava sentindo. Se continuasse com aquele tipo de conversa, estaria mentindo e a mentira poderia, de repente, se voltar contra ela e acabar impedido a adoo.
	Seu irmo no sabia que ia adotar uma criana? Susy perguntou, espantada.
	No  Lya respondeu. Pelo menos aquilo era a mais pura verdade.
	E os seus pais? O que eles disseram?
	Meu pai faleceu. E minha me mora no exterior.
	E sua me ainda no sabe sobre Kate?
	Ainda no me comuniquei com ela.
	E a sua me no vai ficar brava com voc?
	No, quanto a isso pode ficar tranqila.
Voc no contou para mais ningum sobre a adoo?
	No, eu...
	Lya insistiu que no deveramos contar para ningum.  Bob esfregou de leve o ombro de Lya.
Ao ver aquele gesto de carinho, Susy ficou um longo tempo observando os dois em silncio.
Lya, por sua vez, tentava fazer de tudo para se mostrar mais  vontade. Mas estava muito difcil.
	Bem, se vocs dois vierem a se casar...  a garota interrompeu a frase, avaliando a situao.
	Mesmo que eu me case, terei que adotar uma criana  Lya disse.
Bob, muito  vontade, colocou um dos braos sobre os ombros de Lya e comentou:
	Sempre digo  Lya que quero o melhor para ela. E qualquer deciso que venha a tomar eu concordarei.
	E por que at hoje no se casou, Lya?  a garota quis saber.
"Meu Deus... Estou sentindo que entrei num beco sem sada. Bob no podia ter feito isso. Bem, a nica coisa que posso dizer a essa menina  o motivo real pelo qual ainda no me casei at hoje."
	Bem, Susy, a deciso de me casar nunca foi muito fcil.
	Por qu?
	Porque, como j lhe disse, no sou frtil. E os homens querem filhos.
	Mas voc deveria ter me dito tudo isso antes. Deveria ter me contado tudo quando eu lhe disse que queria que a minha filha tivesse um pai. Quer dizer... Voc poderia ter me dito que talvez um dia viesse a se casar. Teria feito muita diferena para mim. E ainda faz muita diferena.  Susy fez uma pausa e depois continuou:  Bem, se voc dois ficarem juntos, mesmo que eu mude de idia, podero adotar uma outra criana. Vai ser a mesma coisa.
"No, no vai ser a mesma coisa!", Lya teve vontade de gritar. "Como essa garota pode falar uma besteira dessa? Ser que no entendeu que eu amo Kate do fundo do meu corao, ser que ela no entendeu que Kate para mim  nica?"
	 isso a: vocs podero adotar uma outra criana  Susy sentenciou.
	E voc, de qualquer maneira, sempre vai poder ter um outro filho. Eu, infelizmente, no.
Lya sentiu que Bob apertava-lhe o ombro como se a avisasse que no deveria ir por aquele caminho.
	Vocs se apegaram muito  garota  Susy concluiu.
	Muito, eu me apeguei muito a ela.
	E deve estar sendo muito sofrido viver essa situao. Para mim est sendo terrvel. s vezes quero ficar com Kate. S que eu sei que no tenho mesmo a menor condio de cri-la. Foi muito duro para mim me separar dela.
	Eu imagino...  Bob parecia muito aflito. A confuso da garota era muito grande. Pelo jeito ela no sabia direito o que queria.
	Se eu ficasse com a minha filha, vocs poderiam adotar uma outra criana.
	Poderamos, sim. Mas pelo que a Lya me disse, isso s aconteceria daqui a uns oito anos.
	Demora tanto tempo assim?
	Demora. E eu no posso esperar tanto tempo. Estou com trinta anos. Por favor, Susy, no faa isso comigo. Deixe eu continuar com Kate. Eu adoro a sua filha. Se ainda voc tivesse a certeza de ficar com ela, eu renunciaria. Mas h pouco voc disse que no tem condio de cri-la, e antes disse que a doaria a um casal.
	... Eu estou muito confusa.
	Sei que est confusa e sei tambm que a sua situao  extremamente delicada e difcil.  Lya comeou a chorar.  Mesmo assim eu lhe peo: se vai mesmo doar Kate, por favor, doe-a a mim.
	Calma, calma, querida...  Bob disse e passou a mo pela cabea de Lya.
"Querida? Meu Deus, ele insiste em continuar representando uma situao que no existe. Ser que Bob no percebe que isso pode estragar tudo? E eu no posso falar com ele sobre isso agora. Se falasse, a, sim, Kate jamais ficaria comigo. Tenho que me controlar. No posso tomar nenhuma atitude intempestiva agora. Querida... Era s essa que me faltava!"
	Voc quer comer alguma coisa, Susy?  Bob sugeriu.
	Comer?  a garota o fitou meio desconfiada.
	E. Se quiser comer alguma coisa, sinta-se  vontade para pedir.
	Vocs esto a fim de comer?  Susy quis saber.
	Ns j almoamos.
	Eu tambm j almocei, mas comi pouco.
	Se quiser, pode almoar de novo.  Bob indicou o cardpio.
	Esse restaurante deve ser muito caro.
	Eu pago a conta.
	Bem, se  assim, vou pedir alguma coisa para comer.
Susy tinha feito o pedido e agora comia com muito apetite.
"Ela estava com fome. Com toda certeza, ainda no tinha almoado. Meu Deus, que tipo de vida Kate vai ter se Susy resolver ficar com a filha? E bem capaz de passar fome... Mas eu no posso fazer nada, no posso pressionar mais a Susy. Ela ainda  to criana, to inexperiente. Adoraria continuar criando Kate. Faria de tudo para que isso acontecesse. Mas Susy  a me dela.  ela que tem que se decidir. Mas seria uma grande injustia se um casal qualquer adotasse a minha criana querida, a minha filhinha do corao. Sim, porque Kate  a minha filha do corao. Eu no a gerei, mas o amor que sinto por ela  bem maior do que tudo que j senti nesse mundo."
	Quer comer mais alguma coisa?  Bob perguntou, ao ver que Susy tinha terminado de almoar.
	Posso pedir uma sobremesa?
	Claro que pode.
	Ento, vou querer sorvete e salada de fruta.
	Sorvete com o frio que est fazendo?  Bob estava espantado.
	Eu adoro sorvete no frio.
Bob acenou para o garom e, em seguida, Ssy fez o pedido. Quando a sobremesa chegou, Lya pediu licena para ir at ao toalete.
Ao se levantar, sentiu que mal conseguia se sustentar nas pernas. Mesmo assim, ela se encaminhou para o toalete. Ao chegar l, sentou-se numa poltrona.
"Que pesadelo. Isso  um grande pesadelo. Um pesadelo do qual jamais vou acordar. Susy est muito confusa. Ela no sabe direito o que quer. Pelo que pude entender, alm do namorado, o pai a est influenciando muito na deciso. E eu s tenho a oferecer muito amor  filha dela, que j considero minha filha. E me sinto muito humilhada. Se fosse uma mulher normal, nada disso estaria acontecendo. Mas o destino quis que a encontrasse naquele dia l no consultrio do ginecologista. Eu deveria ter imaginado que algo semelhante pudesse acontecer. Eu deveria, sim! No incio fiquei com muito medo. No tinha certeza se era ou no capaz de cuidar de uma criaturinha to frgil. Mas quando vi Kate pela primeira vez, todas as minhas dvidas desapareceram e logo senti que era capaz de remover montanhas por ela. E agora... Oh, Meu Deus! Me ajude! A minha vida est nas mos de uma adolescente confusa. Mas mesmo assim ela  a me verdadeira de Kate. No deve ter sido nada fcil para ela carregar um beb na barriga por nove meses e depois d-lo a uma estranha. Tenho certeza que, se a situao financeira da famlia dela fosse diferente, Susy jamais daria a filha. Ela ficou toda apaixonada quando viu as fotografias de Kate. Pensei at que fosse chorar."
Lya inspirou profundamente e se levantou.
"Tenho que voltar para a mesa. Bob pode resolver dizer mais besteiras para ela e eu no quero que isso acontea!"
Ao chegar na mesa, aparentando uma calma que estava longe de sentir, Lya sentou-se e perguntou:
	A sobremesa estava boa?
	Estava, sim. Fazia tempo que eu no experimentava um sorvete de chocolate to gostoso.
	Que bom...
E Lya no soube mais o que dizer.
	Estive pensando  a garota disse.
	Em qu?  Lya perguntou.
	Eu no tenho culpa que voc j tem trinta anos e nem tenho culpa por voc no poder ter filhos.
"No, Susy, no continue a falar comigo desse jeito.  crueldade demais", Lya pediu em pensamento.
	Eu no tenho culpa mesmo.
	Mas  claro que voc no tem culpa  Lya disse, baixinho.
	E estive pensando tambm que a minha filha est bem melhor sob os seus cuidados.
	E ela est. Est, sim, muito bem sob os meus cuidados.
	Mas quando estou ao lado do meu pai, tenho certeza que minha filha tambm vai precisar de um.
	Estarei sempre ao lado dela  Bob falou sem nenhuma hesitao.
	No quero que a minha filha sofra o que eu sofri.
	O sofrimento faz parte da vida, querida  Lya estava emocionada.  Ningum pode impedir que uma outra pessoa sofra. Mas no que estiver ao meu alcance, farei tudo para que Kate seja a criana mais feliz do mundo. E quero que saiba de uma coisa: eu amo aquela coisinha fofa com toda a fora da minha alma e do meu corao.
	Eu sei, eu sei que voc a ama.  Os olhos da garota se encheram de lgrimas.  E acredite, Lya, no estou tentando ferir voc.
	Acredito no que est falando. E no sei mais o que lhe dizer para que deixe Kate comigo.
	Voc ganha muito dinheiro com o seu trabalho?
	Ganho o suficiente para ter uma vida muito confortvel.
	E voc cursou uma universidade?
	Cursei, sim.
	Eu tambm quero fazer uma universidade. E estou pensando em arrumar um emprego. Quem sabe, assim, eu termino os meus estudos.
	E o que voc gostaria de estudar?  Lya perguntou interessada.
	No sei... s vezes acho que quero ser diplomata. De repente, morro de vontade de ser advogada.
	As duas carreiras so muito bonitas.
	Mas para isso vou precisar de muito dinheiro.
 Dinheiro  sempre o grande problema que se interpe entre uma pessoa e o seu sonho.
	No entendi o que voc disse, Lya.
	Bem, o que eu disse  que sem dinheiro a gente no consegue realizar os nossos sonhos.
	Isso  verdade.  A garota se levantou.  J estou indo embora.
	Mas...
	Eu preciso ir embora. Obrigada pela comida.
Sem dizer mais uma s palavra, Susy se retirou do restaurante.
Assim que entraram no carro de Bob, Lya perguntou com muita raiva:
	Como teve coragem de fazer aquilo?
	O que foi que eu fiz?  ele perguntou com a cara mais inocente do mundo.
	O que voc fez? E ainda tem coragem de perguntar? Voc fez de tudo para que a garota acreditasse que ns estamos envolvidos emocionalmente, que ns...
	E ns no estamos?
	S trabalho para voc. Isso  tudo!
	Lya, do jeito que as coisas esto indo, voc tem que agir rpido para no perder Kate. S estava tentando ajud-la.
	Eu apenas trabalho para voc. Isso no lhe d o direito de interferir na minha vida, nem de complic-la ainda mais. No existe nenhum tipo de compromisso entre ns dois. E voc fez de tudo para que Susy pensasse ao contrrio.
	Calma, mulher! S estava tentando ajudar.
	Eu dispenso esse tipo de ajuda.
	Nunca pensei que fosse to brava.
	Eu sou. Quando precisa eu sou, sim, muito brava.
	Estou vendo.
	Voc fez de tudo para que Susy acreditasse que ns dois vamos nos casar.
	E que mal h nisso?
	No  justo para com a Susy.
	Espere um pouco! Agora voc est sendo injusta comigo. Se aquela garota concluiu que ns vamos nos casar, o problema no  meu.
	Bob! Voc ouviu o que acabou de dizer?
	Ouvi. E continuo afirmando que o problema no  meu. Aquela garota est absurdamente confusa. Ela no tem a menor idia do que fazer. E no acho justo que ela tire Kate de voc.
	Susy  muito jovem. No deu para perceber que ela tambm est sofrendo muito?
	Mas  claro que deu para perceber. Mas na minha opinio voc est sofrendo muito mais que ela. E estou muito chateado, Lya, eu apenas deixei claro que estou disposto a fazer o papel de pai para Kate.
	Tenho certeza absoluta que no foi isso que a Susy entendeu.
	O que est querendo?  Bob no fazia questo de esconder a impacincia.  Est querendo que ela leve Kate embora?
	Mas  claro que no!
	Ento, est querendo que ela doe a criana a qualquer um.
	No, voc sabe muito bem o que quero. S que eu no posso ficar prometendo  Susy algo que no vai acontecer. Ela saiu do restaurante pensando que voc vai estar sempre presente na vida de Kate.
	A vida no nos oferece garantia, Lya. Ningum pode garantir que estar para sempre na vida de uma outra pessoa. Os casais se separam, as pessoas morrem. E Susy j tem idade suficiente para saber disso.
	Mas eu no posso deix-la acreditando que voc sempre estar por perto.
	Tudo bem, isso  opinio sua. Mas ser que no percebe o que aquela menina est fazendo com voc? Por que ela pode, de repente, mudar de opinio, fazer a sua vida virar um inferno, e voc no pode faz-la acreditar que eu estarei sempre por perto?
	Ela no passa de uma criana e est sofrendo muito com essa confuso toda.
	E voc? Voc no est sofrendo?
	Estou, estou sofrendo muito e voc sabe disso. Mas quero que as coisas sejam feitas da maneira certa.
	Essa menina est agindo de maneira muito estranha. Acho que est transferindo as necessidades que tem para Kate.
	Como assim? No entendi?
	 ela quem precisa de um pai, no deu para perceber? Pelo que pude entender, o pai dela no  l essas coisas. Hoje, pelo jeito,  a volta do pai que a est influenciando
	Coitada... Tenho muita pena dela.
	E acha que eu no tenho? Mas tambm tenho muita pena de voc. E de Kate tambm: ela merece a segurana que pode dar a ela! E, no que me diz respeito, voc  a me de Kate. Est na hora de tambm comear a pensar assim.
Lya balanou a cabea de um lado para o outro e disse:
	Por mais que voc fale, Bob, por mais que argumente, Susy continua sendo a me de Kate.
	No que me diz respeito, Lya, voc  a me de Kate.
	Daria para fazer o favor de parar com isso?
	Por qu? Por que eu devo parar? Voc me convenceu que  a me dela. Para mim, vocs duas so uma famlia.
	Mas no somos o que Susy quer.
	Por isso acho que deveria me aceitar como um espcie de pai postio para Kate.
	Imagine...
	Sabe, Lya, desde que ns a colocamos no bero que constru, me sinto meio pai ela. Nunca imaginei que isso pudesse acontecer, mas aconteceu. E acho que devo fazer algo a respeito.
	Sinto muito, mas Kate  responsabilidade minha. Nunca imaginei que voc poderia se sentir responsvel por ela.
	Mas eu me sinto.
	No deveria ter lhe pedido que me acompanhasse ao restaurante. Voc perdeu muito tempo.
	Esquea isso. Acompanhei voc at l porque quis.
	Que tal, ento, ligar esse carro? Precisamos voltar para o trabalho.
	Certo. Mas fique sabendo que estou muito magoado pelo fato de estar me excluindo da vida de Kate.  Ele ligou o carro e partiu.
CAPTULO VI

Durante todo o trajeto at a Station, os dois se mantiveram calados. Bob, profundamente irritado com tudo o que havia acontecido, no sabia o que falar, nem como agir. Ao chegarem, ainda havia tentado dizer alguma coisa, mas ela tinha ido direto para a casa de Beth, sem lhe dar a menor ateno.
Mais irritado ainda, Bob se dirigira  oficina e comeara a fazer uma cmoda para um cliente do Texas. Mas s ficou trabalhando por dez minutos. Meio sem jeito, se dirigiu  casa da irm, com a desculpa de querer saber um nmero de telefone.
Beth, como sempre, o recebeu muito bem. Mas Lya se mostrou irredutvel.
Para se safar daquela situao constrangedora, Bob convidou o sobrinho para correr. O garoto, que o adorava, aceitou o convite imediatamente. E os dois foram at um parque que ficava nas proximidades.
	Por que a Lya chegou l em casa chorando?  o garoto quis saber, quando haviam parado para descansar um pouco.
	Por que ela est com muito medo de perder Kate  Bob respondeu.
	Perder?
	, Tyler. Perder. A me verdadeira de Kate no quer que a garotinha seja criada por uma moa solteira.
	No entendi.
	Bem, a me de Kate, que se chama Susy, no quer que a filha seja criada por uma mulher que no tem um marido.
	Mas a minha me no tem um marido. Meu pai morreu.
	Pois ...
	E minha me  uma pessoa muito boa. Todo mundo gosta dela. Ela me d comida, me leva para a escola, me ajuda com a lies. Por que a Lya no pode criar Kate sozinha?
	Eu acho que ela pode, sim. Acontece que a me de Kate no acredita que isso seja possvel.
	Por que a Lya pegou Kate para criar, tio Bob?
Bob se surpreendeu com a pergunta feita pelo garoto e pensou muito bem na resposta que iria dar. Depois da hesitao, resolveu ser sincero com o sobrinho:
	Porque ela no pode ter um filho.
	E por que ela no pode ter um filho?  Tyler havia perguntado com muita tranqilidade.  S porque ela no tem um marido?
	No, no  por causa disso.
	Ento, eu no entendi. Pensei que ela no pudesse ter um beb s porque no tem um marido.
	No, Tyler. A Lya no pode ter um beb, porque tem um problema de sade.
Depois de ouvir aquilo, Tyler ficou muito interessado no assunto.
	Ela est doente? A Lya vai morrer?
	No, querido, ela no vai morrer.

	Mas voc disse que ela tem um problema, um problema...
	De sade  Bob completou-lhe a frase.
	Ento! Se ela tem isso que voc disse, ela vai morrer. E eu no quero que a Lya morra.  Os olhi-nhos do menino se encheram de lgrimas.
Com pacincia e usando as palavras adequadas, Bob explicou ao sobrinho o que acontecia com Lya.
	Ento, ela no vai morrer  Tyler estava aliviado.
	No, no vai.
	Coitada dela  Tyler disse, condodo.  Ento, foi por isso que ela chegou l em casa chorando.
	Foi, sim.
	Voc acha que eu posso falar com a me de Kate, tio? Posso dizer a ela que a Lya  muito legal.
	Acho que no vai dar, Tyler.
	Por qu?
	Esse  um assunto muito delicado. Se as duas no conseguirem resolver a situao, um juiz decidir com quem vai ficar a criana.
-Eo que  um juiz?  Tyler quis saber.
	Um juiz  um homem que estudou muito e que pode decidir com quem Kate tem que ficar.
	Eu acho que Kate devia ficar com a Lya.
	Eu tambm acho.
	Por que voc rio diz isso  Lya?
	Eu j disse.  Bob passou a mo pela cabea do garoto.
	Ento, por que voc no diz isso tambm ao...  Tyler parou um pouco para pensar e, em seguida, perguntou:  Como  mesmo o nome do homem que estudou muito?
	Juiz.
	Ento, tio, por que voc no vai dizer para ele que a Lya  muito legal?
	Por que eu no posso.
	Devia poder.
	 verdade, tambm acho que deveria poder. Mas, infelizmente, no pode.
	Quer dizer que a me de Kate acha que ela deve ter um pai.
	E isso mesmo.
	E a Lya no  casada.  Agora era Tyler quem parecia estar pensando muito em cada palavra, antes de emiti-la em voz alta.
	Exatamente.
	Se a Lya fosse casada ela poderia ficar com Kate?
	Podia, podia, sim.
	Tio, por que voc no casa com a Lya?
	Bem eu...
	Voc no  solteiro?  Tyler perguntou muito compenetrado.
	Sou, sou solteiro.
	Ento... A Lya  solteira, voc  solteiro.  s voc casar com ela. A, Kate no vai embora.
	A coisa no  to fcil assim, Tyler.
	Por que no  to fcil?  s casar.
	Para duas pessoas se casarem elas precisam se amar.
	Mas eu amo muito a Lya. E amo voc tambm. E tambm amo a minha me e Kate.
Bob riu das palavras que o sobrinho tinha acabado de pronunciar.
	Casamento  coisa sria, garoto.
	Meu pai casou com a minha me, no casou?
	Casou, sim.
	Eu no lembro do meu pai, tio.
	Voc  muito parecido com ele.
	Minha me vive me dizendo isso.  O garoto deu uma risadinha e continuou:  Minha me tambm vive dizendo que eu sou chato como ele.
	Sua me  muito brincalhona.
	Eu sei. Eu adoro quando ela ri alto. Parece que tem algum fazendo ccegas nela.
	Sua me  realmente uma pessoa muito alegre.
	Mas, s vezes, ela tambm chora. Ela diz que tem saudades do meu pai.
	Os dois se amavam muito.
	Voc tambm chora, tio?
	Quando estou muito triste, eu choro, sim.
	Tem um menino l na escola que disse que homem no chora.
	Isso  besteira, Tyler.
	Outro dia, eu bati a cabea na parede e no chorei.  Tyler levou a mo no local em que tinha batido a cabea.  Doeu muito, eu queria muito chorar, mas eu no chorei.
	S porque o seu colega lhe disse que homem no chora?
	Foi.
	Pois saiba, garoto, que qualquer ser humano pode e deve chorar. As lgrimas fazem muito bem.
	Fazem bem?  Tyler, intrigado, olhava para Bob.
	Fazem, fazem, sim.
	Mas eu pensei...
	Pode ficar tranqilo, Tyler. Mesmo se voc chorar um balde de lgrimas todos os dias, voc vai continuar sendo homem.
	 mesmo?  Tyler parecia aliviado.
	 mesmo.  Bob voltou a passar a mo sobre a cabea do sobrinho.
	Ia ser muito engraado eu chorar um balde de lgrimas todos os dias.  Ele pensou um pouco e depois perguntou rindo:  Um baldinho ou um baldo?
	Um balde do tamanho que voc quiser.
	Ento, eu quero um baldinho. Eu ainda sou criana.
Bob riu da maneira simples que o sobrinho se expressava. E teve que concordar com o que Lya havia lhe dito um dia. Sim, ele via agora que estava fazendo o papel da figura masculina na criao de Tyler. E se perguntou o porqu de no ter se atentado antes para o fato.
"Talvez no fundo, eu tambm acredite que homem no deva chorar... E isso  algo muito ruim, muito castrador."
	Por que voc ficou quieto tio?
	Porque estava pensando.
	Em qu?
	Sabia que voc  muito curioso, garoto?
	Sabia. Minha me tambm vive me dizendo isso. Mas em qu voc estava pensando?
	Na vida.
	E a vida  muito bonita, no ? A minha professora sempre diz que a vida  muito bonita.  Tyler que estava sentado num banco, ao lado de Bob, se levantou e perguntou:  Voc me d dinheiro para eu comprar...
	Chocolate?  Bob o interrompeu.  De jeito nenhum! Se comer chocolate agora, voc no vai jantar.
	No, eu ia pedir dinheiro para comprar uma flor para a minha me, l na barraquinha.  Tyler apontou.
	Se voc quer dinheiro para comprar uma flor para a sua me, tudo bem.  Bob enfiou a mo no bolso e entregou uma nota ao garoto.  Espero voc aqui.
	Vai continuar pensando na vida, tio?
	Vou.
	Certo.  Tyler se afastou, sob os olhar cuidadoso de Bob.
" muito estranho o que est acontecendo comigo. E tudo comeou quando fiquei sabendo que Lya estava adotando um criana. De repente, dei para pensar no meu passado, na vida terrvel que tive, coisa que sempre fiz questo de ignorar. Foram tempos muitos difceis, tempos de privao, escassez e mgoa. Eu tinha muito medo do meu pai, da violncia com que ele nos tratava. Por que ser que ele se entregou  bebida? Minha me nunca comentou nada conosco. Mas ela devia saber. Meu pai tinha tudo para ter dado certo na vida. No, ele jamais teria ficado rico, mas poderia ter nos criado com um pouco mais de dignidade. No era fcil para mim, suportar as brincadeiras maldosas dos meus colegas de escola. E as crianas, quando querem, sabem ser muito maldosas. Era insuportvel ouvi-los me chamando de o filho do pinguo. E era  toda hora. A, eu resolvi a comear a bater em todos o que me ofendiam. Passei muitos anos da minha vida brigando com os meus colegas, sofrendo as conseqncias da minha agressividade. E fui me isolando de todo mundo. At que um dia, cinco dos meus colegas de classe, resolveram se reunir e me deram a maior surra. A violncia deles foi tanta que acabaram me quebrando um brao. O difcil foi chegar em casa e explicar  minha me o que tinha acontecido. E menti para ela. Disse que tinha sido atropelado por um carro e que o motorista havia fugido. E nunca mais voltei para a escola. No adiantou meu pai me espancar, no adiantou a minha me chorar, a minha deciso estava tomada: jamais voltaria a pr os ps na escola. E foi exatamente o que aconteceu. A, naquela noite terrvel, que acordei sendo esmurrado pelo meu pai, fugi de casa. E fiquei cinco anos sem dar notcias. Ainda bem que encontrei Jerry. Morris que me ofereceu um emprego na marcenaria dele. Foi l que acabei aprendendo uma profisso que, por coincidncia, era a mesma do meu pai. A, num belo dia, me encontro com um amigo do meu pai na rua. At hoje no entendi o que o sr. Slick estava fazendo numa cidadezinha perdida no interior do Arizona. E ele me disse que meu pai tinha morrido e que minha me chorava dia e noite por no saber do meu paradeiro. S me restou uma opo: voltar e cuidar da minha me e da Beth. Trabalhei muito, mas consegui terminar de criar a minha irm e dar um pouco de conforto para a minha me; no,  claro, o conforto que ela merecia. E me tornei um solitrio, avesso s amizades e ao lcool. Um solitrio que se cercou de barreiras s para no ser ferido de novo. Os anos foram passando e, depois de muita luta, consegui abrir a Station.  muito doloroso lembrar que, na semana que abri o meu prprio negcio, a minha me faleceu de um ataque cardaco..."
	Tio, voc est preocupado?  Tyler, com uma rosa em cada mo, interrompeu-lhe os pensamentos.
	Estou, sim, Tyler.
	Com o qu? Eu demorei muito? S fiquei olhando os peixinhos que tem l na banca de flores.
	Tudo bem, tudo bem.  Bob deu um meio sorriso. Mas vejam s: voc comprou duas rosas.
	Uma  para a minha me e a outra  para a Lya. S no comprei uma para Kate porque ela ainda  muito pequenininha.  Tyler colocou uma das rosas sobre o banco, enfiou a mo no bolso e entregou o troco para o tio.  Voc acha que a Lya vai gostar da rosa?
	Com toda certeza.
	Minha me vive dizendo que uma flor sempre deixa uma mulher feliz.
	 mesmo?
	, sim.
	E bom saber disso.
	Voc tambm vai comprar, um flor para a Lya? 	o garoto perguntou, ansioso.
	Quem sabe, um dia... E ento? Vamos voltar para casa?
	Vamos. Mas eu no quero ir correndo. Estou muito cansado.
	Tudo bem, no se preocupe, a gente vai andando.
Enquanto os dois caminhavam para casa, Bob continuou-mergulhado em pensamentos:
"Por que s hoje me dei conta realmente que estou funcionando como pai do Tyler? Ser que os meus bloqueios emocionais so to grandes assim? Na minha idade, j era para ter superado tudo. Bem, no  isso que uma vez eu ouvi um psiquiatra dizendo na televiso. Ele dizia que os adultos guardam no peito muitos problemas que no resolveram pela vida a fora. Lembro que naquele dia, fiquei com tanta raiva do comentrio do psiquiatra que desliguei imediatamente a televiso."
	Tio?
	Diga, garoto.
	Quando  que vou poder a comear a trabalhar na oficina com voc?
	Quando crescer mais um pouco, Tyler.
	Mas quanto tempo  isso?
	Talvez daqui uns trs ou quatro anos.
	Ah... Eu queria comear logo  o garoto tinha ficado muito frustrado.
	No d para comear agora, Tyler. Uma marcenaria  muito perigosa. Voc pode se machucar.
	... O seu amigo perdeu um dedo na serra, no perdeu?
	Perdeu. E ele  adulto, tem quinze anos de profisso. Uma marcenaria no  lugar para um criana to pequena.
	Mas eu podia, pelo menos, aprender a lixar as madeiras. No vou m machucar lixando madeira.
	Voc quer tanto assim aprender a minha profisso?
	Claro que quero.
	Por qu, Tyler? - Bob perguntou, sorrindo?
	Porque eu quero ver a minha fotografia no jornal.
	Pensei que voc fosse estudar bastante, fazer uma faculdade.
	Eu quero estudar bastante, tio. Mas tambm quero ser marceneiro.  De repente, o garoto mudou totalmente de assunto:  Se eu fosse o juiz, eu deixava Kate ficar com a Lya.
	Eu tambm  Bob concordou.
	Por que voc no vai falar com o juiz?
	H pouco lhe respondi esta pergunta, Tyler. No vou falar com o juiz porque no posso, porque isso no  possvel.
	Ento, v falar com a me da Kate.
	J tentei, mas parece que no deu muito certo.
	Eu acho que os adultos so muito complicados, tio.
	 mesmo?  Bob riu do jeito do sobrinho.
	Minha me sempre me diz que eu no devo brigar com as outras crianas, que devo conversar com elas.
	E voc conversa?
	Converso.
	E d certo?  Bob lembrou-se da sua poca de escola, onde no havia lugar para o dilogo.  Perguntei se d certo as conversas que voc tem com o seus colegas, Tyler.
	s vezes d, tio. Mas tem vezes que a gente briga. Mas os adultos no deviam brigar, deviam conversar.
	 verdade.
Os dois caminharam um quarteiro em silncio. E foi Tyler quem retomou a conversa:
	Voc vai me ensinar, tio Bob?
	O que voc quer que eu lhe ensine?
	A lixar madeira.
	Vou pensar no assunto.
	Pense agora. Ainda faltam dois quarteires para chegar em casa. Voc tem tempo.
Tyler, estrategicamente, voltou a ficar em silncio. Depois de andarem mais um quarteiro, ele voltou ao assunto:
	J pensou?
	Combinado, garoto. Vou ensinar voc a lixar madeira. Mas s a lixar. Voc tem que me prometer que ficar longe das mquinas. E tambm vai me prometer que no pegar nenhuma das minhas ferramentas.
	Eu prometo  Tyler estava muito compenetrado.
	Posso confiar em voc?
	Pode. Eu fico num cantinho lixando madeira.
	Mas isso, s depois que tiver feito o seu dever escolar. E  melhor que voc fique no quintal.
	Por qu?
	No quero que fique aspirando aquela serragem toda.
	Est bem.
Ficaram em silncio por alguns minutos.
	Tio?  Tyler chamou.
	O que foi agora?
	No quer mesmo dar uma rosa para a Lya?
	No, obrigado. Voc mesmo entrega a rosa para ela. Quando os dois chegaram em frente  Station, Lya
saa com Kate no colo.
Feliz, Tyler se aproximou dela e lhe entregou a rosa.
	Tyler, muito obrigada  ela agradeceu, emocionada.   a primeira vez na vida que recebo uma rosa.
	Verdade?
	 verdade, sim  Lya confirmou.
	E para voc ficar feliz e no chorar mais.
	Voc  uma gracinha de menino.
	Eu ia comprar uma rosa para Kate, mas no comprei. Ela ainda  muito pequena. Agora, vou levar essa rosa para a minha me.  O garoto abriu o porto que ficava ao lado da Station e entrou correndo.
Frente a frente, a situao constrangedora que havia se criado entre Lya e Bob ficou muito evidente.
	Queria de lhe fazer um pedido  ela disse, num tom baixo de voz.
	Pode fazer.
	At que Kate melhore do resfriado, gostaria de traz-la comigo quando vier trabalhar.
	Sinta-se  vontade.
	Obrigada.  Ela deu-lhe as costas e rumou para o carro.

CAPTULO VII

J fazia duas semanas que acontecera o encontro no restaurante com Susy. A situao entre Lya e Bob, depois daquele dia, havia se tornado muito tensa.
Apesar continuar se mostrando muito educada, Bob sentia que Lya estava perdendo o interesse pelo trabalho. Tal fato, e a maneira que ela passara a agir, o estava deixando profundamente chateado. No entendimento dele, no merecia ser tratado com tanto desinteresse. O que tinha dito no restaurante, fora com as melhores das intenes. S havia tentado ajudar. Mas Lya era uma pessoa extremamente honesta e jamais admitiria qualquer tipo de mentira. Porm, na maneira de Bob ver as coisas, no havia mentido. Com o maior prazer do mundo, faria tudo que estivesse ao seu alcance para que Kate crescesse forte e saudvel.
Apesar de saber das injustias sociais e lutar contra elas, Bob realmente no via a menor condio de Susy criar a filha. E a moa, na verdade, queria doar a garotinha para um casal. E o que impedia que ele e Lya formassem esse casal? Nada. No seriam um casal como a maioria mas, sim, um casal de amigos, dispostos a fazer tudo pela felicidade de Kate.
Lya, aps o dia em que tinham ido ao restaurante, passara a levar Kate ao trabalho. E estava se mostrando ausente, reticente e j no o tratava de maneira afetiva. Ao contrrio, fazia questo de se mostrar arredia e raramente lhe dirigia palavra. Quando o fazia era para falar de trabalho.
Kate, uma semana depois, j estava completamente recuperada do resfriado. Mesmo assim, Kate continuou levando a garotinha para a Station.
s vezes, fingindo estar atento em alguma outra coisa, Bob ficava prestando ateno na maneira carinhosa com que ela tratava a criana. Chegava a ser emocionante o amor que Lya demonstrava pela garota. E Bob estava acreditando que o fato de ela continuar levando a menina para o trabalho, se devia ao medo que tinha de perd-la. Era como se Lya quisesse ficar a maior parte do tempo com Kate para depois, quando a perdesse, pudesse recordar cada segundo que haviam passado juntas.
Mas Lya, cuidadosa do jeito que era, temendo que a serragem prejudicasse a menina, a deixava na casa de Beth e sempre que podia, ia at l para v-la.
Ao perceber o que estava acontecendo, Bob fez uma grande limpeza na oficina e s passou a serrar madeira nos dias em que Ly e Kate no se encontravam l. No queria que nada de mal acontecesse  menina.
Porm, para ele, Lya parecia no estar percebendo os cuidados que estava tendo. E gostaria muito de conversar com ela, pedir-lhe desculpas pelo que fizera no restaurante. Mas lhe faltava coragem.
Agora via que Lya tinha, sim, razo. Era melhor no fazer nada de maneira impensada pois, se viessem a descobrir qualquer coisa de errado, qualquer mentira, com toda certeza Lya perderia a criana.
Naquela manh, Bob tinha acordado s cinco horas e, depois de deixar a oficina e a loja toda em ordem, ficou  espera de Lya e de Kate. Estava morrendo de saudades das duas.
As oito horas da manh, Lya entrou na Station. Ao se deparar com Bob sentado  escrivaninha, ela se assustou. Mesmo assim, com extremo distanciamento, disse:
	Bom dia, Bob.
	Bom dia. Como voc est?
	Bem, muito bem.
	E Kate? Sarou mesmo do resfriado?  ele perguntou, morrendo de vontade de se levantar para ver a garotinha. Mas se conteve.
	Sarou, sim.  Lya colocou a bolsa num cabide ao lado da porta.  Vou levar Kate para a casa da Beth. Tudo bem?
	Tudo bem.
	Ento, vou at l.
Lya deixou a Station e foi para a casa da Beth. Quando ela voltou, Bob comentou:
	Gostei da moa que a minha irm arrumou para cuidar da casa dela.
	Beth merecia um bom emprego.
	 verdade. Ela teve muita sorte em arrumar esse novo emprego.
	J era tempo do talento dela ser reconhecido. Ela  muito esforada.
Lya no disse mais nada e ficou esperando que ele sasse da escrivaninha.
Devagar, Bob se levantou e comentou:
	O bom  que a Lilly tambm pode cuidar da Kate, quando voc vem trabalhar.
	Foi muita sorte essa moa ter vindo trabalhar na casa da sua irm.
	Foi sorte mesmo.  Bob se afastou um pouco e, quando estava perto da porta da oficina, voltou-se e quis saber:  Por favor, Lya, tem certeza que os Carl-ton vo querer os mveis do quarto que me encomendaram em cerejeira?
	No foi isso que eu marquei no pedido que fizeram?
	Foi, mas me encontrei com John Carlton na rua e ele, na hora que estava se despedindo, me disse que adorava mogno.
	Ele disse isso?  Lya perguntou, preocupada.
	Disse.
	Ento, vou ligar para a sra. Carlton e ver se houve algum engano da minha parte.
	Faa isso, por favor.
Cinco minutos mais tarde, transtornada, Lya entrava na oficina.
	O que est acontecendo?  ele perguntou, ao notar-lhe a palidez.
	Voc tinha razo. Os mveis devem mesmo ser feitos em mogno.  Os olhos dela se encheram e lgrimas.  Me desculpe, Bob, prometo que um erro desse no vai acontecer de novo.
	Eu sei que no vai  ele respondeu, num tom baixo de voz.
	Sei que nada justifica o meu erro, mas eu ando muito tensa, mal tenho conseguido dormir  noite.
	Teve notcias da Susy?
	No, mas meu advogado me disse que em breve terei novidades.
	Ele no disse mais nada?
	No, eu comecei a chorar e no fui capaz de continuar a conversa com ele.
	Mas depois voc telefonou para ele, no telefonou?
	No, no tive coragem.
	Mas...
	No tive coragem  ela voltou a repetir.  Ontem  noite, comecei a preparar a malinha da Kate.
	Voc est pretendendo viajar?
	No, mas tenho certeza que ela vai ser tirada de mim.
	No perca as esperanas, Lya.
	Estou apenas sendo realista. No quero mais continuar me enganando. Faz muito tempo que no acredito em milagres, Bob.
	Mas eles acontecem...
	Pode ser que aconteam com os outros, no comigo.
Bem, vou para a loja. Tenho muito servio para fazer.
Depois que Lya saiu da oficina, ele no conseguiu mais trabalhar. Precisava fazer alguma coisa para ajud-la. No dava para Lya ficar o tempo todo se torturando tanto.
Meia hora mais tarde, ele entrava na loja.
	Est precisando de alguma coisa?  ela quis saber.
	S estou querendo conversar um pouco com voc.
	No vai dar, Bob, estou com o meu servio bastante atrasado. At estou pensando em levar alguns livros para casa.
	Est precisando trabalhar na contabilidade da Station hoje  noite?
	Estou.
	No, eu acho que no precisa. Voc  perfeccionista demais, Lya. No tem muita coisa atrasada.
	Mas eu gosto de manter tudo absolutamente em dia.
	Eu sei disso, mas acho que deveria se divertir um pouco.
	No tenho tempo para me.divertir, Bob.
	Se quiser, voc encontra tempo.
	Eu tenho uma filha...  Ela, de repente, interrompeu a frase que estava dizendo.
	Continue  ele pediu , o que voc ia dizer?
	Bem, eu ainda tenho uma filha e preciso cuidar dela.
	Lya, se continuar a agir dessa maneira obsessiva, vai acabar ficando doente. A, quem vai cuidar da Kate?
	Eu...
	Ser que j pensou nisso?
	Eu no quero ficar doente.
	Eu sei que no quer ficar doente, mas isso pode acontecer.
	Estou passando pelo pior momento da minha vida.
	E acha que no sei disso?  Ele, penalizado com o estado de Lya balanou a cabea de um lado para o outro e sugeriu:  No quer ir comigo hoje ao cinema?
	No, eu no posso.
	No pode ou no quer, Lya?
	No posso. Tenho certeza que no conseguiria me concentrar no filme. E no tenho com quem deixar Kate.
	Converse com a Lilly. Talvez ela possa ficar com Kate hoje  noite.
	No, acho melhor no facilitar. O advogado pode telefonar e...
	E a Lilly anota o recado.
	No, eu no quero ir ao cinema, Bob.
	Tenho um tima idia. A gente pode ir comer uma pizza quando terminar o expediente. Que tal? Kate pode ir conosco.
	Bem...
	Combinado. Ns trs vamos comer uma pizza.
	Ns trs?  Ela o fitou espantada.
	Voc, Kate e eu.
Lya sorriu de maneira tmida. E aquele sorriso foi o suficiente para deix-lo extremamente feliz. H muito, muito tempo, Bob no a via sorrir.
	Bem, vou voltar l para a oficina.
Quando terminou o expediente, Lya parecia um pouco mais relaxada, um pouco mais tranqila.
	Vamos?  ele perguntou ao entrar na loja.
	Vamos, sim.  Lya, com Kate nos braos, saiu e foi para o carro dela.
	No quer ir no meu carro?  Bob sugeriu.  Depois voc passa aqui para pegar o seu.
	Estou pensando em deixar o meu carro em casa. A, pego o carrinho da Kate e a gente vai para o restaurante.
	Por mim est tudo certo.
Bob seguiu Lya at  casa dela.
Em torno das sete horas da noite, eles entravam no restaurante.
"Tenho certeza que todos esto achando que somos marido e mulher, e que Kate  nossa filha", ele pensava depois de ter feito o pedido ao garom.
A garotinha, que dormia no carrinho, comeou a se mexer.
	Kate logo vai acordar. Est na hora de ela mamar.
	Essa menina est cada dia mais forte.
	Graas a Deus.
	E ela continua no lhe dando trabalho  noite?
	Kate no me d o menor trabalho. S ficou meio enjoadinha durante o resfriado. Depois, voltou a ser a mesma de sempre.
	Cada dia que passa, acho que ela est mais parecida com voc, Lya.
	Acha mesmo?
	 incrvel a semelhana entre vocs duas.
Bob se esforava para que o assunto no passasse a ser Susy. Naquela noite, queria que Lya relaxasse um pouco.
Ele, ento, contou  Lya que recebera um convite.
	Convite?  ela perguntou, curiosa, sem esperar que Bob terminasse de lhe explicar do que se tratava.
	. E estou muito feliz. Vai ter uma exposio de mveis artesanais l em San Francisco, e eu fui convidado para expor duas peas.
	Mas isso  muito bom, Bob.
	Pelo que fiquei sabendo, os expositores foram escolhidos a dedo.
	E voc vai participar, no vai?
	Mas  claro que sim. Acho que, enfim, o meu trabalho est mesmo sendo reconhecido.
	E voc merece todo o sucesso do mundo.
	Ser que mereo?  ele duvidou.
	Mas  claro que merece! Voc  muito modesto, Bob. Gente com bem menos talento que o seu j est fazendo mveis para os artistas de Hollywood. Mas me diga: j pensou nas peas que vai expor?
	J.
	E que peas vai fazer para a exposio?
	No vou fazer as peas para a exposio. Vou levar duas que j esto prontas.
	E que peas so essas?
	Vou levar aquela cristaleira que est na minha sala e aquela mesa torneada que fica no hall de entrada.
	Elas so belssimas! Nessa exposio vai ter julgamento?
	Vai, sim.
E vo dar algum prmio?  Lya estava entusiasmada.
	Vinte mil dlares para o primeiro colocado e dez mil para o segundo.
	Meu Deus! Que bom!
	Mas eu no tenho a menor chance de ganhar um prmio.
	Como sabe disso?
	Ter gente muito melhor que eu por l.
	Duvido que tenha gente melhor que v participar dessa exposio. O primeiro prmio j  seu. E voc vai ganh-lo com aquela cristaleira. Nunca vi um mvel mais bonito do que aquele em toda a minha vida.
	Tambm no precisa exagerar, Lya.
	No estou exagerando.
No carrinho, Kate deu uma choramingada.
	Acho que a nossa amiga acordou  Bob comentou.
	E acordou com fome. Olha l, ela est chupando o dedinho.
Lya abriu a sacola que havia trazido e pegou a mamadeira. Em seguida, tomou a garotinha no colo e comeou a amament-la.
	Ela cresceu bastante  Bob disse em um dado momento.
	E incrvel como criana nessa idade cresce. V s como ela mama?
	Ela  muito gulosa?
	Acho que sim. Kate s chora mesmo quando est com fome. E sempre toma a mamadeira toda.
Os dois continuaram conversando sobre assuntos diversos. Quando Kate terminou de mamar, Lya a manteve no colo at que a pizza chegasse.
Assim que o garom se aproximou, Lya colocou Kate no carrinho.
	Pelo jeito, ela resolveu ficar acordada  Bob comentou, enquanto o garom os servia.  Veja como os olhinhos dela brilham.
	Logo ela estar dormindo de novo.
	Isso que  vida!  ele disse e pegou os talheres.  Essa pizza est com um cheiro delicioso.
	Quer dizer, ento, que voc nunca tinha comido marguerita?
	No.  Ele cortou um pedao de pizza e o levou  boca.  Que sabor suave. Onde foi que conheceu essa pizza?
	Na casa da minha av.
	Ela morou na Itlia?
	Morou. Minha av era italiana.
	 mesmo? Eu no sabia.
	Minha av veio para a Amrica quando tinha dezenove anos. A, conheceu o meu av e os dois se casaram.
	E em que lugar eles moravam?
	Em Nova York. Os dois tinham uma pizzaria.
	Ento, foi por isso que voc aceitou o meu convite para virmos comer uma pizza.
	Eu adoro pizza.
	E voc sabe fazer pizza, Lya?
	Mas  claro que sei. Tenho o maior cuidado para preparar a massa.
	O qu?  ele perguntou espantado.  Quer dizer, ento, que quando resolve fazer pizza, voc tambm prepara a massa?
	Preparo, mas  claro que preparo.
	Pensei que fosse ao supermercado e comprasse a pizza pronta.
	A, fica fcil, Bob.  Ela riu.   s pegar a pizza e colocar no forno.
	 verdade. E  exatamente isso que fao quando quero comer pizza.
	No, o gostoso  fazer a massa, preparar os ingredientes que vo por cima, tudo com o maior capricho. Quem sabe, um dia, eu fao uma pizza de aliche e convido voc para ir comer l em casa.
	Nunca ouvi falar nesse tipo de pizza.
	 a que eu mais gosto.
	Por qu, ento, no pediu pizza de aliche?
	Porque no constava do cardpio.
	Vai ver que aqui eles no conhecem esse tipo de pizza.  Ele riu.
	Pode ser...  Lya tambm riu.
Ao v-la to  vontade, Bob se sentiu muito feliz. Pelo menos por alguns instantes, Lya estava esquecendo do drama que vivia.
	A exposio  para breve?  ela perguntou, quando j esperavam que o garom lhes servisse o caf.
	Na metade do prximo ms.
	E voc vai at l?
	Estou pensando em s mandar os mveis.
	Por qu?
	No gosto muito de festas.
	Mas  muito importante que voc v San Francisco, Bob.
	Para qu?
	As pessoas precisam conhecer voc.
	No, Lya, as pessoas precisam conhecer o meu trabalho.
	Elas tambm precisam conhecer voc.  assim que o mundo de hoje funciona, Bob. Os artistas tambm tm que se preocupar com o marketing.
	No sou um artista  ele afirmou.
	No?  Ela o fitou espantada.
	No sou um artista  ele voltou a afirmar.
	E voc  o qu?  Lya perguntou, sorrindo.
	Sou um marceneiro.
	No, Bob, voc  um artista. E dos bons. E acho que deve ir a San Francisco.
	No d, Lya...
	Por qu?
	Sou um homem muito tmido. No saberia conversar com as pessoas, no saberia o que vestir.
	 s conversar com as pessoas como est fazendo comigo. E quando ao vestir, pode usar as roupas do seu dia-a-dia.
	Jeans e camiseta?
	Claro.
	Pensei que nesse lugares as pessoas se vestissem de maneira mais sofisticada.
	Hoje em dia, Bob, as pessoas se vestem da maneira que se sentem  vontade. Se existem homens que se sentem melhor usando um terno,  s usar terno. Se se sentem melhor de jeans,  s usar jeans.
	A exposio vai ser num museu l em San Francisco. E eu nunca na vida entrei num museu.
	No acredito  Lya estava espantadssima.
	Pois pode acreditar.
	E como consegue fazer coisas to maravilhosas?
	No sei.
	Eu sei: voc tem talento.  isso. E nem mil escolas conseguem dar talento a uma pessoa. Mas como foi que voc comeou a trabalhar com madeira?
	E uma longa histria  ele respondeu, meio ressabiado.
	E no quer me contar.
	No, hoje no. Hoje  dia para conversas alegres.

CAPITULO VIII

Os dias foram passando. A Pscoa chegou e se foi. Kate estava cada vez mais esperta e agora j reconhecia Bob. Sempre que o via, a garotinha abria um amplo sorriso. E aquilo o deixava muito feliz. Era muito bom ver um ser to frgil crescer e tomar contato com o mundo que o cercava. s vezes, quando Kate lhe sorria, Bob tinha a sensao que o mundo lhe sorria tambm.
A exposio em San Francisco tinha sido muito boa para ele. Como Lya havia previsto, ganhou o primeiro prmio e agora, muito mais que antes, os pedidos de novos mveis choviam na Station. Com o dinheiro do prmio, ele substituiu algumas mquinas que j estavam velhas e comprou um lindo presente para Kate. O resto, previdente, Bob colocou numa poupana.
E a rotina na Station havia se tornado algo muito familiar, tranqilo. Depois do dia em que tinham ido comer a pizza, Bob no pde mais negar a si mesmo a atrao que sentia por Lya. E essa atrao aumentava a cada dia que passava.
Por causa do aumento dos pedidos, oferecera a Lya quase o triplo do salrio para que fosse trabalhar todos os dias na Station. E ela havia aceito a proposta.
Bob, todos os dias s oito horas da manh, sentia o sangue correr mais veloz pelo seu corpo. E a pontualidade de Lya era exemplar. S um dia, por causa de um pneu furado, ela havia atrasado meia hora. Mesmo assim, da rua, Lya o avisara que iria atrasar.
Mas num dia claro, iluminado pelo um sol de primavera, algo aconteceu que ameaou aquela rotina reconfortante.
Um homem entrou na Station. Lya, que estava fazendo algumas contas na mquina de calcular, ergueu o olhar e sentiu algo muito ruim.
	Oi  o homem disse , gostaria de falar com a srta. Sinclair.
	Sou eu mesma.
	Tenho uma carta para a senhorita. Por favor, assine aqui.  O homem lhe estendeu um papel e lhe indicou o local onde deveria assinar.
Trmula, Lya assinou o papel e o devolveu. O homem agradeceu e foi embora.
Naquele instante, todo sorridente, Bob apareceu na porta que ligava a loja  oficina com um formo na mo.
	Lya, acho que devemos comemorar. Terminei a pea que aquele cliente do Colorado me encomendou. Ficou fantstica.
	No sei se hoje vou conseguir comemorar alguma coisa.  Ela mostrou-lhe a carta.  Isso acabou de chegar.
	 para mim?
	No, a carta  para mim. Um homem acabou de entreg-la. E me fez assinar o recebimento. Estou com um pressentimento terrvel.
	Abra a carta, Lya, no adianta ficar desse jeito. Voc est plida.
	No, eu no quero abrir essa carta.
	No seja criana.  Ele se aproximou da escrivaninha.  Abra a carta.
	No, eu no vou conseguir.
	Vou pegar um copo d'gua para voc.  Bob foi at  cozinha e logo voltou com um copo nas mos.  Beba, vai lhe fazer bem.
Lya, muito trmula, pegou o copo que Bob lhe estendia.
	Vamos, coragem! Beba a gua.
Devagar ela bebeu um pouco da gua.
	Beba tudo, Lya. Pense de maneira positiva. At que estou achando muito bom esta carta ter chegado. Se for o que estamos pensando, voc vai resolver de uma vez por todas esta situao terrvel em que est vivendo.
	Eu no quero resolver situao nenhuma, s quero ficar com Kate.
	Lya, por favor, abra essa carta.
	Eu...  Ela tomou, de uma s vez, o restante da gua e colocou o copo sobre a escrivaninha.  Voc nem imagina como estou me sentindo.
	Imagino. Imagino, sim. Eu tambm estou me sentindo muito apreensivo.
	Estou vivendo uma grande injustia, Bob.
	Mas  claro que est. Acontece, Lya, que essa situao tem que ser resolvida.
	Voc tem razo.  Ela rasgou a borda do envelope e retirou o papel que estava dentro.  Pronto.
	Agora leia o que est escrito a.
No, eu no vou ler.  Lya jogou o papel e o envelope sobre a escrivaninha, se levantou e comeou a andar de um lado para o outro.  Vou fugir, vou embora dessa cidade. A, posso ficar com a minha filha para sempre.
	Voc no pode fazer isso.
	E quem vai me impedir?  Ela o fitou de maneira desafiadora.  Voc?
	No, longe de mim pensar em impedi-la de fazer qualquer coisa. Mas fugir no vai resolver o seu problema.
	Como voc sabe disso?
	A fuga s adia a resoluo dos nossos problemas. Quando os problemas aparecem, Lya, precisamos enfrent-los. Se no fizermos isso, sempre seremos perseguidos por eles.
	Parece que est falando com conhecimento de causa  ela riu de maneira irnica.
	No s parece, como tenho conhecimento de causa.
	Quer dizer, ento, que j fugiu de alguma situao constrangedora?
	J. Mas isso j faz muito tempo.
	Me conte o motivo que o levou a fugir. Foi alguma mulher?
	No, no fugi de nenhuma mulher.
	Ento, qual foi motivo da sua fuga?

	Qualquer hora eu lhe conto tudo. Agora, acho melhor voc ler aquele papel.
	 muita injustia!  Ela comeou a chorar.  No me conformo em perder a minha filha. Eu a amo tanto, tanto. Se eu pudesse, daria a ela tudo o que esse mundo pode oferecer de melhor. Kate  um ser to frgil, desprotegido... Ser que as pessoas que vo adot-la conseguiro trat-la melhor do que eu?
	Duvido. Voc  uma me exemplar.
	Acontece que sou solteira. E, no mundo de hoje, as mulheres solteiras so muito discriminadas. Ser que  um crime ser solteira?
	Existe muita intolerncia nessa sociedade que vivemos, Lya, mas temos que aprender a conviver com elas.
	Duvido que tenha aprendido a conviver com as intolerncias, Bob. Se tivesse aprendido, no teria optado por ficar trancado dia e noite na oficina.
	Voc tem razo,  muito difcil para mim entender o mundo que vivemos, entender as diferenas sociais, ver a opresso de um ser humano sobre o outro. Na terra existe lugar para todos e parece que as pessoas no se aperceberam disso.
	Eu no suporto mais ver tanta violncia. Voc liga a televiso e  violncia o tempo todo. A, de repente, por ser uma mulher solteira, essa violncia recai sobre mim. Ou melhor, recai sobre uma criancinha de trs meses.
	Lya, concordo plenamente com o que voc est falando mas, neste momento, voc tem que ler aquele papel para ver o que est acontecendo.
	E muito difcil para mim. Tenho vontade de rasgar e queimar aquele papel.
	Quer que o leia para voc?
	No, eu...  Ela inspirou profundamente e disse:  Tudo bem. Vamos l! Por favor, veja o que est escrito no papel.
Bob se aproximou da escrivaninha e pegou o papel. S ento percebeu que tambm tremia muito.
	O que foi? Perdeu a coragem?  Lya perguntou.
	Ainda no.
	Ento, por favor, leia. Vou acabar estourando, tamanha  a minha ansiedade.
Bob leu o que estava escrito no papel.
	E para voc comparecer no tribunal. E, como espervamos,  para tratar da adoo.
	Meu Deus...
	Tente relaxar, Lya.
	E como? Como eu posso relaxar? Estou sendo agredida!
	Tambm acho, mas agora ns precisamos manter a calma.
Mesmo naquela situao aterradora, Lya adorou ouvi-lo pronunciar a palavra ns.
	E quando  que terei que comparecer no tribunal?
	No dia treze de julho.  Ele colocou a convocao sobre a escrivaninha.
	Treze de julho...  Lya disse baixinho e voltou a sentar-se.  Treze de julho...
	No fique assim, Lya  Bob estava assustado com a apatia que parecia ter se abatido sobre ela.
	Eu no me conformo, no me conformo mesmo. E eu que cheguei a pensar que a Susy tivesse desistido de tudo. Cheguei a pensar que, depois daquele almoo, ela tivesse pensado melhor e decidido deixar Kate comigo.
	Lya, voc tem que fazer de tudo para manter a calma. Susy pode estar apenas querendo oficializar a adoo.
	No acredito nisso. Adoraria acreditar, mas no acredito. Eles vo tirar Kate de mim.
	Acabei de dizer e vou repetir: voc tem que fazer de tudo para manter a calma.
	Na certa o pai de Susy e o namorado dela continuam insistindo para que tire Kate de mim.
	Para mim, esses dois indivduos no prestam.
	Tambm no  bem assim.
	E como , ento? Se os dois estivessem muito interessado na garota, com toda a certeza j teriam pelo menos vindo aqui para conhec-la.
	Por mais que tentemos falar, argumentar, o fato  que eles so o av e o pai de Kate.
	Biologicamente falando, sim.
	E, numa hora dessa,  tudo o que interessa.  Ela voltou a se levantar.  No sei se vou suportar isso tudo.  muita presso, muito desespero.
Lya, de repente, sentiu-se meio tonta e, para no cair, apoiou-se na escrivaninha.
Assustado, Bob se aproximou dela e a abraou.
	Meu Deus, o que voc est sentido.
	Fiquei meio tonta.
	Voc no pode continuar desse jeito. Tanta tenso s pode lhe fazer mal.
	Tem dias que penso que vou enlouquecer.
	No, voc no vai enlouquecer, Lya.  Ele a abraou com mais fora.  Estou aqui para ajud-la. E quero que saiba uma coisa: eu acredito em voc. Acredito em voc como pessoa, como mulher e como me. E acho que s voc tem direito de continuar criando Kate.
	Obrigada, Bob, me sinto muito reconfortada com as suas palavras. Voc  um grande amigo.
	E quero que saiba que estou aqui para ajud-la no que for preciso.
 Eu agradeo muito, Bob. Muito mesmo.
	Estou falando srio, Lya. No sou apenas falando por falar. Se precisar de algo que esteja ao meu alcance, pode contar comigo.
	Essas suas palavras me deixam muito mais tranqila.
Os dois continuavam abraados. E Lya se sentia profundamente protegida.
	Fico feliz que se sinta mais tranqila com o meu apoio, mas ainda sinto que posso ajud-la muito mais.
	Mais? Mais do que j est me ajudando?
	Muito mais.
Lya sentiu um tremor pelo corpo e se afastou.
	Acredite, Bob, nunca na vida algum me ajudou tanto. Voc  um homem muito bom, muito especial.
	Voc tambm  uma mulher muito especial. E merece toda a felicidade do mundo.
Lya, bastante incomodada com aquele abrao, foi sentar-se de novo a escrivaninha.
	Est se sentindo melhor?  ele quis saber.
	Estou. Estou, sim.
	Acho melhor voc voltar para casa e descansar.
	Mas eu tenho que continuar trabalhando.
	No se preocupe com nada. V embora e descanse. Se precisar de alguma coisa  s me telefonar.
Lya, no entanto, preferiu continuar na Station. Era um maneira de ficar perto de Bob, era uma maneira de continuar sentindo-se protegida.
Naquele dia, Bob foi para a cozinha e preparou o almoo. 
Em torno do meio-dia, ele entrou na loja e convidou:
	Vamos almoar, Lya?
	Obrigada, Bob. Como sempre eu trouxe um lanche e...
	Mas hoje voc vai almoar comigo. E vai comer uma  comidinha especial, feita por mim.  uma comemorao.
	Comemorao?  Ela perguntou, desanimada.
	Mas hoje ns no temos nada para comemorar.
	Kate est bem, no est?
	Felizmente, sim. Acabei de voltar da casa da Beth. Ela est tima.
	Ento, temos motivo para comemorar. Kate est bem, ns estamos bem e, melhor do que tudo isso, ns estamos vivos. Quer motivo melhor para comemorarmos?
	E verdade, s vezes ficamos to desesperados com os nossos problemas que ns esquecemos que estamos vivos. E a vida  uma grande bno de Deus.
	Viu s? Viu s como temos motivos de sobra para comemorar? Vamos, levante-se e venha experimentar a comida que fiz.
	Jamais imaginei que voc soubesse cozinhar.
	Nesta vida, Lya, para sobreviver, precisamos aprender de tudo um pouco.
Lya, ao entrar na cozinha do apartamento de Bob, se encantou com o cuidado com que ele havia arrumado a mesa e comentou:
	Est tudo muito bonito, Bob.
	Obrigado. Eu me esforcei para agrad-la. Quero ver voc sorrindo.
	Voc  um grande amigo.  Ela sentou-se  mesa.
	O melhor que encontrei em toda a minha vida.
Bob, bastante sem jeito pelas palavras dela, foi para o fogo.
	O que voc fez de bom?
	Uma bela macarronada, com bife  milanesa.
	Adoro bife  milanesa.
	Eu tinha certeza.
Ele pegou a travessa com o macarro e a levou para a mesa. Depois, foi buscar os bifes.
	Quer que eu sirva voc, Lya?
	Por favor, faa isso. Instantes depois, Lya comentava:
	Quer dizer, ento, que alm de um excelente marceneiro, Bob Gray  tambm um excelente mestre-cuca. Quem diria!
	A comida est boa?
	Ela est maravilhosa. O seu tempero lembra muito o da minha av. Com quem voc aprendeu a cozinhar?
	Com um amigo que tambm era marceneiro  ele respondeu.
Bob no queria levar adiante aquele assunto pois, se o fizesse, teria que contar  Lya sobre a sua fuga de casa. Ele, ento, comeou a falar sobre os novos mveis que estava pretendendo fazer. Quando tinham acabado de almoar, o telefone tocou.
	Me d licena.  Bob se levantou e atendeu  chamada. Ao desligar, ele estava muito preocupado.
	O que foi que aconteceu?
	O Tyler. Tenho que ir para a escola.
	Aconteceu alguma coisa grave com o garoto?
	Parece que se meteu numa briga e cortou a testa.
	O Tyler, brigando? Mas ele  um garoto to calmo.
	Me desculpe ter que sair assim, Lya, mas preciso ir ver pessoalmente o que aconteceu. Tentaram falar com a Beth no servio e no a encontraram. Gostaria de saber aonde a minha irmzinha se meteu.
	V, v para a escola. Eu cuido da arrumao da cozinha para voc.
	Certo.
Bob em menos de dez minutos estava na escola que o sobrinho freqentava. Sem perda de tempo, ele se encaminhou para a diretoria.
	Onde est o meu sobrinho?  ele perguntou, assim que o diretor o atendeu.
	No precisa ficar to preocupado, sr. Gray, seu sobrinho est bem.
	Mas onde est ele?
	Neste instante est conversando com a nossa psicloga.
	Foi ele quem provocou a briga?
	Ainda no sabemos. Mesmo assim, quero que o senhor e a sua irm conversem seriamente com ele e lhe expliquem que no d para ficar brigando com os colegas por qualquer motivo.
	Mas o Tyler  um menino muito calmo.
	Tambm me surpreendeu muito a atitude dele. Que eu saiba, Tyler nunca se desentendeu com ningum aqui dentro.
Bob continuou conversando com o diretor por mais alguns minutos e, depois, foi esperar o sobrinho na ante-sala da psicloga. Quando o garoto saiu, ostentava com um certo orgulho, um curativo na testa.
	Voc vai brigar comigo, tio?  o garoto quis saber.
	No sem antes saber exatamente o que aconteceu.
	Eu s me defendi  Tyler disse e sentou-se ao lado de Bob.
	Por qu? Por que voc teve que se defender?
	Paul, um menino da minha classe disse que a minha me no prestava. No sei direito o que isso significa, mas sei que no  coisa boa.
	Daria para me explicar melhor o que esse menino disse?
	Ele disse que eu no tenho pai e que por causa disso a minha me no presta. A, eu disse a ele que meu pai morreu. A, o Paul disse que era mentira e mais um monto de coisas. Como voc sempre me diz que a gente tem que conversar, e no brigar, quis explicar ao Paul que era tudo verdade, que meu pai tinha morrido mesmo. Ele riu de mim. A, tio, no agentei: dei um murro na cara dele. O Paul caiu mas logo se levantou. Ento, pegou um pedao de madeira que estava ao lado dele e deu uma pancada na minha testa.  O garoto lhe mostrou a camisa toda manchada de sangue.  Ainda bem que o sangue parou.
	Bem, acho melhor a gente ir embora.  Bob se levantou e estendeu a mo para o garoto.  Vamos.
	Voc vai me colocar de castigo?
	No, filho, no vou colocar de castigo. Voc j almoou?
	Ainda no.
	Ento vamos passar num loja. Vou comprar uma camiseta para voc. Depois vou lev-lo para almoar. Precisamos conversar bastante.
CAPITULO IX

Ao sair da escola, Bob passou numa loja e comprou uma camiseta para Tyler. Sabia que iria precisar ter muito cuidado para conversar com o sobrinho que, pelo jeito, havia simplesmente reagido a uma provocao maldosa de um dos colegas. E Bob sabia muito bem o quanto uma provocao daquele tipo podia ser difcil de suportar.
Tyler, na prpria loja, trocou a camisa suja de sangue pela camiseta nova e os dois foram at uma lanchonete.
	Voc no vai comer?  Tyler quis saber, quando viu que o tio no fizera nenhum pedido  garonete.
	No, eu j almocei.
	Voc est bravo comigo?
	No estou bravo, Tyler, apenas preocupado. No d para ir agredindo as pessoas assim, sem mais nem menos. J lhe disse que nada  mais poderoso do que o dilogo.
	Eu sei, tio, mas o Paul no quis conversar comigo.
	Eu entendi. Mas mesmo assim, Tyler, voc vai ter de aprender a se controlar.
E os dois continuaram conversando.
Depois que o o garoto terminou de almoar, Bob resolveu lev-lo at ao zoolgico e os dois s foram chegar em casa s seis horas da tarde.
Junto ao porto que levava at a casa do garoto, Bob disse:
	Agora entre e v tomar um banho. E no se esquea de tudo o que eu lhe disse.
	Eu no vou esquecer, tio.
O garoto entrou e Bob ficou parado alguns instantes  porta da Station.
"No  nada fcil educar uma criana. E as crianas de hoje em dia, pelo jeito, continuam iguais as de antigamente."
Ele inspirou profundamente e entrou na loja.
Lya, que estava sentada, levantou-se.
	Tudo bem com o Tyler?  ela quis saber.
	Felizmente est tudo bem, sim.
	Fiquei muito preocupada. Voc demorou muito.
	Resolvi fazer um passeio com ele.  Bob contou  Lya tudo o que havia acontecido.
	Coitadinho...
	Eu tambm fiquei com muita pena, mas tive que conversar muito seriamente com ele.
	Fez bem.
	Obrigada, Lya.
	Por que voc est me agradecendo?
	Por no ter ido embora, por ter me esperado.
	No podia ir embora sem saber o que tinha acontecido.
	Voc  uma pessoa incrvel.  Bob se aproximou mais dela.  E estou morrendo de vontade de beij-la.
	Eu...
	No quer que eu a beije, Lya?
	Bem, no acho que ns devemos nos...  Apavorada, Lya parou a frase na metade.
	Pois eu acho que ns devemos, sim  ele disse e, em seguida, a beijou.
Mas o beijo foi muito rpido, muito tmido. Profundamente sem jeito, Lya se afastou e disse:
	Bem agora vou pegar Kate. Preciso ir embora.
Bob, espantado com aquela reao, no moveu um g msculo e deixou que ela se fosse.
Na manh seguinte, quando Lya chegou para o trabalho, Bob viu que ela estava com olheiras profundas. Os dois se cumprimentaram e ela foi levar Kate para a casa de Beth.
"Tenho certeza que Lya no dormiu bem", ele pensou. "Mas eu tambm quase no dormi essa noite. Ser que Lya ficou muito chateada por causa do beijo? Mas foi apenas um beijo. Um beijo, nada mais..."
Ao voltar, Lya trocou algumas palavras com Bob e foi para o seu local de trabalho.
Bob, que terminava de montar uma cama toda torneada, nada disse. Porm, ficou a manh inteirinha pensando no que tinha acontecido no dia anterior e em como seria a sua vida, caso comeasse a se relacionar de maneira sria com Lya.
Por volta do horrio do almoo, dizendo que precisava resolver alguns negcios, ele saiu. E ficou rodando pela cidade.
Depois de um rpido almoo, decidiu entrar num cinema. Mas no prestou a menor ateno no filme.
No final da tarde, resolveu voltar. Ao entrar na Station, Lya estava falando ao telefone.
	Algum problema?  ele quis saber, assim que ela desligou o aparelho.
	No, nenhum problema. Apenas um cliente querendo saber o preo de uma sala de jantar.
	E surgiu algum problema enquanto estive fora?
	Nada que eu no pudesse resolver.
	Voc  muito eficiente.
	Obrigada.
A situao entre os dois estava muito constrangedora. Bob tinha vontade de tom-la nos braos e beij-la. Mas a timidez o impedia.
	O dia foi muito agradvel hoje  ele comentou, por no saber o que dizer.
	Realmente, o dia foi muito agradvel  Lya concordou.
	Eu...  ele hesitou.  Eu estive pensando...
	Em qu?
	Bem, Lya, no sei se deveria tocar nesse assunto, mas acho que ns dois precisamos conversar.
	Sobre o qu?
	Sobre o que est acontecendo conosco.
Lya sentiu um friozinho percorrer-lhe o corpo. Mas manteve-se calada.
	Estou me sentindo como um idiota. No sei como abordar o assunto com voc.  Ele inspirou profundamente.  Mas acho que ns dois temos tudo a ver um com o outro.
	Voc acha mesmo?  Lya perguntou, baixinho.
	Eu acho, sim. Mas no quero que fique brava comigo.
	No estou brava com voc, Bob.
	Mas pode ficar com o que eu vou lhe dizer.  Ele inspirou profundamente e perguntou:  Voc sente alguma atrao por mim?
	Seria uma grande mentirosa se lhe dissesse que no  ela respondeu, em voz baixa.
	Eu tambm me sinto atrado por voc. E acho que deveramos nos casar. A, tudo estaria resolvido: ningum mais poderia impedi-la de ficar com Kate.
	No sei se essa seria a soluo.
	Lya, eu amo muito a Kate. Adoraria me tornar o pai dela.
Lya pensou um pouco e disse:
	Tudo bem, eu aceito o seu pedido.
Bob que tinha a mais absoluta certeza que iria demorar muito para convenc-la, mal podia acreditar no que acabara de ouvir.
	Bem, ento agora existem alguns detalhes que precisamos deixar bem claros.
	Detalhes?  Ela o fitou meio desentendida.
	Exatamente. J que concordou em se casar comigo, quero que venha morar aqui na minha casa.
	Morar aqui? Mas eu pensei que...
	Lya, entenda, estou muito contente em me tornar o pai da Kate. E tambm estou muito contente em me tornar o seu marido. Mas no quero que o nosso casamento seja s de aparncia. Quero um casamento de verdade.
	O que voc est querendo dizer com um casamento de verdade?  ela perguntou meio ressabiada.
	Quero que... bem...  Ele no sabia como abordar o assunto.  Para ser sincero, Lya, quero que a gente tambm se relacione sexualmente. J est mais do que na hora de eu ter uma companheira.
Lya estava muito confusa. Mesmo assim, respondeu:
	Combinado, teremos um casamento de verdade.
Agora quem estava confuso era Bob.
	Mas pode ficar sossegada, no vou apressar nada e nem fazer nada que no queira.
	Eu confio em voc, Bob. E ns dois somos adultos, saberemos nos comportar de maneira civilizada.
"No estou entendendo o que Lya est querendo dizer, mas vou ficar quieto."
	Voc quer mesmo que eu venha morar aqui na sua casa?
	Quero, sim. Fica mais fcil para ns dois.
	Acho que  o mais certo a fazer. Temos que ser lgicos, objetivos.
"Lgicos e objetivos? Ser que Lya est pensando que estamos discutindo ttica de futebol?"
	J que aceitou o meu pedido, gostaria que marcssemos a data.
	Para mim tanto faz.
	Mas...
	Que tal em junho?  ela resolveu sugerir.
	Em junho? Estava pensando em nos casar em maio.
	Ento, est combinado: nos casamos em maio.
"O que foi que deu nessa mulher? Ela est fria, distante. E est encarando o nosso casamento com muita displicncia!"
	Em que dia de maio?  Bob quis saber.
	Voc decide.
	Mas Lya, gostaria que voc escolhesse o dia.
	Que tal no ltimo sbado de maio? A, teremos um pouco mais de quinze dias para os preparativos.
	Certo. Vou falar com o padre e pedir que marque o nosso casamento.
	Padre?  ela perguntou espantada.  Pensei que s fossemos nos casar no civil.
	No, tambm quero me casar no religioso.
	Voc quer que eu me vista de noiva?
	Eu adoraria.
	Ento, eu me visto.
"No acredito. De repente, Lya est parecendo uma outra pessoa."
	Voc quer avisar algum sobre o nosso casamento?
	Apenas o meu irmo.
	S o seu irmo?
	S o meu irmo.
	Tem certeza que no quer convidar mais ningum?
	Tenho, sim.  Ela deu um profundo suspiro.  Mas quero lhe fazer uma pergunta.
	Pode fazer.
	Por que resolveu se casar comigo?
Bob, que no esperava por aquela pergunta, pensou um pouco antes de responder:
	Acho que j passou da hora de eu constituir uma famlia.
	S isso?
Ele sorriu.
	Sabe, um dia apareceu uma moa aqui na loja, oferecendo seus servios contbeis. Eu, que estava precisando de um contador, aceitei a oferta. E no me arrependi. Essa moa se mostrou muito competente e de muita confiana. Quando me dei conta, estava fazendo um bero para a filhinha dela. E adorei fazer aquele bero. S que o bero me mostrou que eu no podia mais continuar um solteiro. A, resolvi pedir essa moa  em casamento.
	Oh, Bob, voc  o melhor amigo do mundo. E gostaria de poder fazer por voc um dcimo do que est fazendo por mim.
	Voc tambm  uma excelente amiga e j fez muito por mim.
	Eu?  Ela o fitou espantada.  Eu nunca fiz nada por voc.
	No?  Bob sorriu.  Mas  claro que fez. Voc trouxe Kate para c. E Kate, para mim, funcionou como um raio de luz que iluminou a escurido em que eu vivia. Kate  luz,  vida,  esperana num futuro melhor.
	Voc no existe, Bob. No sei como at hoje est solteiro.
	Acho que estava esperando por voc e pela Kate.
	 verdade?
	Pode acreditar. E que tal, agora, ns selarmos o nosso compromisso?
	De que jeito?
	Assim!  Ele a puxou para junto de si e a beijou com desejo.
	Me desculpe, eu...  Beth que tinha entrado na sala, parou estupefacta.  No acredito! O que est acontecendo aqui?
Pegos em flagrante, os dois se afastaram imediatamente. Bob foi o primeiro a se recuperar do susto. Mas Beth no o deixou falar:
	Robert Nathaniel Gray! Voc tambm? No acredito! Quer dizer, ento, que o santo do meu irmo tambm comete os seus pecadinhos.  Beth, enquanto falava, ria muito.  Vamos l, meu irmo, estou esperando uma explicao. Voc me deve isso!
	Acontece que...
	Esse  o grande dia da minha vida! O grande, o perfeito, o maravilhoso Bob Gray est mais parecendo um adolescente assustado. E est vermelho!
	Quer parar com isso, menina?
	De jeito nenhum! Estou esperando uma boa explicao, maninho.  Beth ps as mos na cintura.
	Se voc me deixar falar, eu explico.
	Ento, pode falar. Estou esperando.
	Lya e eu vamos nos casar.
	O qu?  Beth estava espantadssima.  Daria para repetir o que acabou de dizer? Acho que no ouvi direito.
	Voc ouviu direito, sim. Mas vou repetir: Lya e eu decidimos nos casar.
	Vocs dois? Um com o outro?
	Claro que vamos nos casar um com o outro.
	 espantoso!
	O que  espantoso, Beth?
	Como no percebi nada? Um romance acontecendo bem debaixo do meu nariz e eu no sabia de nada.
	No quisemos comentar nada antes porque...
	Porque tnhamos medo que no desse certo  Lya completou a frase de Bob.
	Eu no posso acreditar no que estou ouvindo. Aleluia! Finalmente o homem que por mais de mil vezes disse que jamais iria se casar....  Beth interrompeu o que estava falando e perguntou:  Sabe que ainda no estou acreditando que isso seja verdade? Acho que estou sonhando e que vou acordar a qualquer momento.
	Voc no est sonhando e  tudo verdade  Bob afirmou, satisfeito.
	Quer dizer, ento, que voc, Lya Sinclair,  a grande herona?
	Eu, herona?
	Mas  claro que voc  uma grande herona. Meu irmo sempre se manteve acima de tudo e de todos, distante de qualquer coisa que se possa chamar de mundana. A, de repente, sem mais nem menos, voc consegue fisg-lo e eu vou ter uma cunhada. Uma cunhada e uma sobrinha! E bom demais para ser verdade. Mas me digam: quando vai sair o casrio?
	Decidimos que ser no ltimo sbado de maio  Bob disse.
	Do ano que vem?
	Imagine, Beth, se vamos esperar tanto tempo. Lya e eu nos casaremos daqui um pouco mais de quinze dias.
	To rpido assim? No vai dar tempo para prepararmos uma festa.
	Ns no queremos festa  Lya informou.
	Como no querem festa? Casamento, para mim, tem que ter festa!
	Faremos uma cerimnia bem simples.
	De jeito nenhum. Voc no pode concordar com isso, maninho. Toda mulher quer um casamento com muita pompa: vestido de noiva e mais um monte de coisa.
	Mas eu vou me vestir de noiva.
	Vai?  Beth duvidou.
	Vou.
	Bem, agora as coisas esto melhorando.
Naquele noite, ao chegar em casa, Lya ligou para o irmo. Como sempre, quem atendeu o recado foi a secretria eletrnica. Depois de deixar um recado para o irmo, pedindo que entrasse em contato com ela, Lya desligou o telefone e foi tomar um banho.
Devido os ltimos acontecimentos, ela mal conseguia raciocinar.
"Nem posso acreditar que isso tudo seja verdade. E estou sentindo uma sensao muito boa dentro de mim. E isso se chama amor. Eu amo Bob. Pena que ele sinta por mim apenas uma grande amizade e esteja fazendo tudo isso por causa da Kate. Mesmo assim, acho que esse casamento tem tudo para dar certo. Quem sabe, com o tempo, ele venha a me amar? A, sim, a minha felicidade estar completa."
Lya continuou pensando, sonhando acordada. Ao sair do banheiro, estava sorrindo.
Instantes mais tarde o telefone tocava. Era Michael, o irmo de Lya.
Depois de cumprimentar o rapaz, ela disse:
	Voc, como sempre, no pra em casa.
	Ando muito ocupado, Lya, muito trabalho. E voc, como est?
	Bem, felizmente.
	E a minha sobrinha?
	Kate est cada dia mais linda, mais esperta.
	Estou louca para conhec-la.
	Agora voc ter essa oportunidade.
	No entendi.
	Mas vai entender j, j: eu vou me casar, Michael, e quero que esteja aqui no dia do meu casamento.
	Voc vai se casar?  o rapaz perguntou gritando, do outro lado da linha.  E quem  o coitado?
	Quer parar com isso?
	 s uma brincadeirinha, Lya. Mas me diga, com quem voc vai se casar?
	O nome dele  Bob Gray. Ele  o meu patro.
	O marceneiro?
	Exatamente.
	Aquele que ganhou o prmio aqui em San Francisco?
	Voc ouviu falar sobre ele?  Lya perguntou, orgulhosa.
 No s ouvi, como cheguei a ver os mveis que ele exps no museu. Ele  bom mesmo!  Voc gostou dos mveis?
	Se gostei? Eu adorei. Estive at pensando em pedir que ele faa alguma coisa para mim.
	Tenho certeza que o Bob ter o maior prazer em atend-lo.
Michael fez um pausa e depois perguntou:
	Mas voc no me disse que ele era um homem calado, que quase no se relacionava com as pessoas e ficava o tempo todo trabalhando?  Michael, de repente, parecia preocupado.
	Disse.
	E mesmo assim est querendo se casar com ele?
	Estou.
	E acha que esse homem vai faz-la feliz, Lya?
	Tenho certeza que sim.
	Ainda estou achando que, apesar do talento, esse Bob  meio estranho.
	Tenho certeza que quando conhec-lo, voc vai ador-lo. Bob  um amor de criatura.
	Est dizendo isso porque se apaixonou por ele.
	No, Michael.  verdade. Bob  um homem muito bom.
	Olha, Lya, no quero que cometa nenhuma loucura.
	No vou cometer nenhuma loucura, pode ficar tranqilo. Bob  o melhor homem que conheci na minha vida.
	E guando voc esto pensando em se casar?
	No dia 27 de maio.
	Do ano que vem?
Lya sorriu. A pergunta era a mesma que Beth fizera quando Bob havia lhe dito a data do casamento.
	Lya, voc est me ouvindo?
	Estou, estou, sim. Perguntei se esto pretendendo se casar no ano que vem.
	No, Michael. Vamos nos casar ainda neste ms de maio.
	No  possvel!
	E quero que voc esteja presente.
Lya continuou conversando com o irmo e, quando desligou, teve o pressentimento de que Michael no compareceria ao casamento.
CAPTULO X

Lya e Bob estavam surpresos com o entusiasmo de Beth. Para a irm de Bob, o casamento era algo que deveria ser comemorado com outras pessoas. E, por mais que os dois argumentassem contra, Beth no desistia: queria uma comemorao. A insistncia dela foi to grande que eles acabaram concordando.
Beth, ento, no perdeu tempo. Foi para o computador e criou um convite bastante incomum. Ao verem o convite, Lya e Bob riram muito, mas acabaram concordando com ele. Beth, ento, Comprou um papel especial e tirou cem cpias.
	Voc no est pretendendo convidar cem pessoas, est?  Bob perguntou, assustado, quando viu os convites prontos.
	Mas  claro que estou  Beth respondeu, feliz.
	Eu acho que  um grande exagero. Voc sabe que detesto festas, aglomeraes. Tenho certeza que no iria me sentir nada bem. E, no se esquea, eu sou o noivo.
	Bem, se  assim, posso cortar alguns convidados.
	Quero que corte no s alguns convidados da sua lista, maninha, mas o maior nmero possvel.
	Farei isso, pode ficar tranqilo.
	No, com voc nunca d para ficar tranqilo.
Lya, que estava presente quela conversa, no disse nada. Apesar de apreensiva com o rumo que a cerimnia do casamento havia tomado, no fundo sentia-se profundamente satisfeita. Afinal, iria ter um casamento de verdade.
	Venha comigo  Beth a chamou , vamos at l em casa subscrever os convites.
Lya a acompanhou e, no final daquela tarde de sbado, todos os convites tinham sido subscritos. E ao todo eram setenta.
	Viu s?  Beth perguntou satisfeita, olhando para pilha de convites.  Consegui cortar trinta convidados da lista. Na segunda-feira, vou pr tudo no correio.
Depois de guardar os convites numa caixa, Beth disse:
	Agora, vamos conversar sobre a decorao da igreja e do salo, onde vai acontecer a recepo.
Ao ouvir os planos de Beth, Lya ficou muito mais apreensiva. Durante a recepo, a moa queria um pianista e um harpista para fazer o fundo musical.
	Voc gosta muito de festas de casamento, no ?  Lya perguntou. 
	Adoro. Se soubesse como eu gostaria de ter tido uma festa no meu. Mas o meu casamento foi muito simples. No tive absolutamente nada do que sempre imaginei. Afinal, precisei me casar s pressas.  A moa riu.  Acho que estou vivendo um processo de transferncia: vou fazer no seu casamento tudo o que gostaria de ter feito no meu.
Beth, ento, comeou a conversar com Lya sobre o vestido de noiva.
	Na segunda-feira, depois que eu sair do meu ser
vio, a gente vai falar com o costureiro.
Mais tarde, Lya foi para a oficina.
	Aconteceu alguma coisa?  Bob quis saber.  Voc me parece meio estranha.
	No, est tudo bem.
	Mas  claro que no est tudo bem. Posso sentir isso nos seus gestos. Venha, sente-se aqui.  Ele indicou-lhe o colo.
Meio sem graa, Lya pegou um banquinho.
	Prefiro me sentar aqui.
	Tudo bem.  Ele sorriu e, depois de Lya ter se sentado, perguntou:  Me conte o que est acontecendo.
	Bem, acho que a Beth est exagerando um pouco.
	Em qu? Ser que ela subscreveu os cem convites?
	No, ela conseguiu cortar trinta pessoas da lista de convidados.
	Mesmo assim restaram setenta, o que para mim continua sendo um grande exagero.
	Mas o problema, a meu ver, no  s esse. Alm de um pianista, sua irm quer contratar um harpista.
	Essa Beth! O que ela pensa da vida? Depois eu falo com ela.
	Acho que voc deve conversar com ela, sim, mas v se fala com jeito com a sua irm. Ela pode se magoar.
	Deixa comigo, eu sei como lidar com aquela
maluquinha.
Lya ficou em silncio.
	Mais algum problema?
	 a histria do casamento.
	O que foi? Resolveu mudar de idia?  Bob perguntou, um tanto aflito.
	No, de jeito nenhum. Eu quero me casar com voc.
	 muito bom ouvir isso.
	Acontece, Bob, que ns queramos uma cerimnia simples e teremos uma grande comemorao. E sei que voc  avesso a festas.
	No se preocupe comigo, estou me sentindo muito bem. A Beth est tentando fazer por ns dois o que ela no teve. Minha irm sempre sonhou que teria um casamento pomposo. Infelizmente, pelas circunstncias, o dela foi muito simples.
	Beth me disse.
	Ela  uma pessoa que acredita muito na famlia. E adoraria ter uns cinco filhos.
	Quem sabe... Um dia ela ainda encontra uma outra pessoa para compartilhar a vida. Beth  ainda muito nova. Eu, infelizmente, nunca vou poder encher essa casa de crianas.
	Por favor, Lya, no fique triste.
	Voc nem imagina o quanto fiquei frustrada quando o mdico me disse que eu no podia ter filhos.
	Eu imagino...
	Foi o maior golpe que tive na minha vida. De repente, era como se tudo no tivesse e nem fizesse o menor sentido.
	Mas agora voc tem Kate. Estou adorando a idia de ser o pai dela.
	Bob, voc  uma amor de pessoa, mas tenho certeza que sempre pensou em ter os seus prprios filhos.
	No, eu nunca pensei em ter filhos. Sequer pensei em me casar. Pode acreditar: voc e Kate so muito mais do que sempre sonhei para mim.
	 mesmo?  Lya duvidou.
	 mesmo.  Bob estendeu a mo e acariciou-lhe a cabea.  Pode acreditar em mim.
	Eu gostaria muito de poder lhe dar um filho.
	No pense nisso, Lya. Kate j  minha filha.
	Voc nem imagina como sofri quando o mdico disse que jamais poderia engravidar. Foi um baque muito grande para mim.
	Eu sei que foi. Mais tarde, se quiser, podemos adotar outras crianas.
	Voc no se importa mesmo em no ter um filho seu de verdade?
	Lya, acho que a vida j me deu mais que o suficiente, bem mais do que mereo ou sonhei. Estou muito feliz com o que tenho. E gostaria que voc tambm ficasse feliz.
	Todo homem quer ter um filho, Bob.
	Pois eu sou a exceo que confirma a regra.
	Por qu? Por que voc  assim to diferente dos outros homens?
	No sei, acho que carrego dentro de mim a histria da minha vida. E ela no foi nada fcil.
	Voc teve problemas com os seus pais?
	Com o meu pai, especificamente.  Bob, ento, decidiu contar  Lya o que tinha acontecido na sua vida.
Ela, atenta, o escutava e se emocionou muito ao saber o quanto Bob havia sofrido.
	No deve ter sido nada fcil para voc.
	No, no foi nada fcil. E foi por tudo isso que nunca pensei em me casar. Afinal, achei que ningum fosse se interessar por mim.
	Como pde pensar uma coisa dessa? Voc  um homem muito interessante.
	Voc acha mesmo?
	Mas  claro que acho.
	Quando algum passa pelo que passei, fica muito difcil conseguir uma auto-estima elevada.  Ele deu um profundo suspiro.  Posso lhe fazer uma pergunta, Lya?
	Sinta-se  vontade.
	Voc est se casando comigo s por causa da Kate?
	No, de jeito nenhum. Estou me casando com voc porque acredito realmente que o nosso casamento possa dar certo.  E por que eu te amo, ela teve vontade de dizer.
	Isso  muito bom de ouvir.  Bob ficou alguns instantes em silncio e depois disse:  Sabe o que est passando pela minha cabea?
	No. Mas estou louca para saber do que se trata.
	Que tal ns deixarmos que a Beth faa tudo o que tem vontade? Acho que ns dois realmente merecemos uma bela festa de casamento.
	Tudo bem, teremos um bela festa de casamento  Lya concordou.
Porm o que Lya no sabia era que uma festa de casamento dava o maior trabalho.
Na manh da vspera da cerimnia, ao chegar na Station com Kate no colo, ela estava se sentindo muito cansada.
	E como vai a minha noiva?  Bob perguntou, quando ela entrou.
	Morta de cansao.
	E a minha filhinha?  Bob retirou a manta que  cobria a garota.
	Ela no deve estar sentindo cansao nenhum. Nunca vi algum dormir tanto.
	Ainda bem. Deve ser muito bom poder dormir assim, com tanta tranqilidade.
	Bem, vou lev-la at a casa da Beth. Depois, vou ter que sair.
	Aonde voc vai?  ele quis saber.
	Pegar o meu vestido e ver se est tudo em ordem no local da recepo.
	Antes de levar Kate para a casa da minha irm, me responda a uma pergunta.  Bob acariciou o rosto de Lya.
	E qual  a pergunta?
	Voc est feliz?
	Muito. Estou muito feliz, Bob. E voc?
	Eu tambm.
Lya foi pegar o vestido de noiva e depois foi para o salo onde iria acontecer a recepo. Ao voltar para Station, teve uma grande surpresa:
	Michael! Voc veio?  Ela correu para abraar o irmo.
	E voc acha que eu perderia esse casamento? De maneira alguma!
	E j conheceu Kate?
	Bob me levou para conhec-la. Ela  linda. E se parece muito com voc.
	Voc achou mesmo?
	Achei, sim. Mas me diga: como est se sentindo como uma senhora casada?
	Eu no sou uma senhora casada.
	Mas  quase.  Michael riu.
	Onde est o Bob?  Lya quis saber.
	Precisou ir at ao escritrio dele.
	Faz tempo que est aqui?
	De acordo com o Bob, cheguei logo depois que voc saiu.
	E o que voc achou dele?
	Bob me pareceu uma pessoa muito decente  Michael deu um suspiro de alvio.  Estava com medo de conhec-lo, mas voc tinha razo. E  incrvel a delicadeza com que ele trata a Kate.
	Eu disse a voc. Bob  um homem muito especial.
	Estou torcendo para que seja feliz, Lya.
	Eu tambm.  Ela deu um beijo no rosto do irmo.  E voc? Quando vai se casar?
	Quando aparecer na minha vida uma linda princesa, capaz de roubar o meu corao.
	E ela ainda no apareceu? Voc vive dizendo que est apaixonado.
	A paixo, pelo menos para mim,  um estado de esprito.  Ele riu.
	Tenho pena das moas que se aproximam de voc.
	Eu tambm.
	E ainda em coragem de concordar comigo? Sabia que voc se tornou um grande machista?
	Eu? Machista? De jeito nenhum!
	Gostaria muito de v-lo casado e feliz.
	Eu tambm. Mas o meu dia vai chegar. E quando esse dia chegar, vou querer um casamento igualzinho ao seu.
	Bob lhi contou?
	Contou. Parece que foi a irm dele... Como  mesmo o nome dela?
	Beth.
	Exatamente: Beth. Parece que foi ela quem resolveu fazer uma grande festa.
	Beth  um amor de garota. E  muito animada. Para ela, o casamento do irmo, est sendo um grande acontecimento. At os convites foi ela quem fez.
	E voc adorou.
	Adorei. Adorei, sim  Lya admitiu, sorrindo.
Bob entrou na loja e disse:
	Que bom que voc j chegou. Liguei para um rastaurante e pedi que trouxessem uma comida especial para ns.
	Foi um tima idia. Estou com muita fome.
	Ento, vamos l para o meu apartamento para tomarmos um drinque.
	Certo  Lya concordou.  Antes, porm, vou l na casa de Beth pegar Kate. Quero que ela participe do almoo.
A capela estava repleta de gente. Quando Lya entrou com o irmo, todos comentaram a beleza da noiva. E ela estava se sentindo flutuar. Quando Bob a recebeu no altar, Lya teve que se controlar .para no chorar.
A emoo de Bob tambm era muito grande. No instante em que o padre comeou a falar, ele teve a certeza que estava dando o passo mais correto de toda a sua vida. E, de um jeito verdadeiro, apaixonado, jurou am-la e proteg-la pela vida toda, da mesma maneira que Lya havia feito um pouco antes.
A recepo, como era de se esperar, foi um verdadeiro sucesso. Em um dado momento, quando os convidados, na maioria clientes de Bob, j haviam jantado, Betl subiu no pequeno palco onde estavam os msicos e pediu a ateno de todos:
	Senhoras e senhores, posso lhes assegurar que hoje  um dos dias mais felizes da minha vida. Afinal, hoje  o casamento do meu irmo. E quero lhes dizer que me orgulho de ser irm de Bob. No existe no murdo pessoa mais amiga, mais generosa do que ele. Apesar dessa cara sempre sria, sempre carrancuda, ele lem um corao de ouro.
T/ler, que usava um terninho azul-marinho, subiu no palco e se postou ao lado da me. Em um dado momento do discurso de Beth, o garoto disse:
	Eu tambm quero falar.
Os convidados riram do jeito do garoto. Beth, ento, abaixou o microfone e o menino disse:
	, sim. Meu tio Bob  um homem muito bacana. E a Lya tambm.
Mais uma vez os convidados riram do jeito do garoto que, ao contrrio do que se poderia esperar, no se inibiu com as risadas e continuou:
	Quando eu crescer, vou ser marceneiro como ele. At j comecei a aprender a lixar madeira.
Mais risadas.
	E o meu tio...  O menino parou de repente.  No No foi o meu tio. Foi a Lya! A Lya me deu uma prirr.inha que eu adoro muito. Agora chega! Quero comer o bolo!
Tyler desceu correndo do palco, sob o aplauso de todos. Beth, ento, ergueu a mo para pedir silncio e disse:
	Meu filho acabou de estragar a surpresa que eu ia fazer para os noivos.  Ela, ento, acenou para o dono do buf que havia contratado. Em seguida, sobre um carrinho empurrado por dois garons, entrou no salo um bolo de trs andares. Naquele instante, Beth gritou:
	Viva os noivos!
	Viva!  os convidados gritaram e aplaudiram. Beth desceu do palco e foi ficar junto  Lya e Bob,
que j se encontravam ao lado do bolo.
	Mas eu no sabia que ia ter bolo  Lya disse, emocionada.
	E voc acha que num casamento que se preze pode faltar bolo, minha cunhada?
	E olha que bonitinho...  Lya apontou para a parte superior do bolo.  Tem dois noivinhos!
	Voc no vai cortar o bolo, tia Lya?  Tyler perguntou, ansioso.
	Vou, claro que vou.
	Antes temos que trazer Kate aqui!  Beth fez um sinal para Michael que estava com a garotinha no colo. Ele, ento, se levantou e foi para perto da irm.
	Onde est a faca?  Bob quis saber.
O garom entregou uma faca a Lya.
Mais uma vez, Beth interferiu:
	Vocs tm que cortar o bolo juntos! E tm que fazer um pedido!
	E eu tenho que comer o bolo!  Tyler no estava mais agentando ver aquele bolo imenso diante de si, sem poder toc-lo.
	Tyler, comporte-se!  Beth disse para o garoto.
	Mas mame, tem uma parte do bolo que  de chocolate.
	Calma, logo voc vai comer o bolo.  Beth voltou-se para Lya e Bob.  Agora, meus queridos noivos, faam o pedido e cortem o bolo.
Sorrindo muito, os dois seguiram as instrues de Beth. Assim que terminaram de cortar o bolo, Bob deu um abrao em Lya e depois beijou-lhe os lbios de leve.
Os noivos voltaram para a mesa. Mas Tyler no desistiu. E o primeiro pedao de bolo foi servido a ele.
	No imaginava que ia ter um bolo  Lya disse  cunhada.
	Foi uma surpresa.
	Uma linda surpresa, diga-se de passagem  Bob comentou.
	E vocs tero uma outra surpresinha  Beth disse, fazendo suspense e dando uma piscadela para Michael.
	Olha l o que voc vai aprontar!  Bob, enquanto falava, apontava o dedo indicador para a irm.
	Estou morrendo de medo de voc, maninho.
E a festa continuou muito alegre. No final, quando todos j tinham ido embora, Beth abriu a bolsa e entregou um envelope ao irmo.
	O que  isso?  Bob perguntou e entregou o envelope  Lya.
	 s abrir para ver.  o meu presente de casamento.
Lya abriu o envelope. Dentro dele tinha uma chave, com um bilhetinho que dizia: Vale uma noite na sute do Hotel Lago Azul. Da Kate deixa que eu cuido!

CAPITULO XI

No carro, a caminho do hotel, que ficava a oitenta quilmetros de White Star, Lya e Bob se mantinham em silncio. Os dois estavam se sentindo muito constrangidos.
"E estranho, muito estranho isso tudo. De repente, quando dei por mim, estava casada com Bob. Ele, desde o primeiro momento que o conheci, me despertou algo que no sabia explicar a mim mesma. E, com o passar do tempo, descobri qup aquele sentimento era amor. Nunca na minha vida senti nada semelhante por outro homem. Mas ns praticamente quase no nos tocamos. Estou me sentindo totalmente inadequada, com a sensao que, se no fosse por causa da Kate, ele jamais se casaria comigo."
O silncio se mantinha entre os dois, mas os pensamentos de Bob tambm corriam soltos:
"Por qu? Por que no tive coragem de dizer  Lya que eu a amo? Com toda certeza, est pensando que me casei com ela por causa da Kate. Mas no foi por causa da Kate. Depois que a vi conversando com a Susy naquele restaurante, a grande atrao que sempre senti por ela se transformou em algo mais forte, se transformou em amor. E eu nunca a toquei de maneira mais ntima. Como ser que vai ser a nossa lua-de-mel? Eu tenho que ir com muita calma. Se Lya no quiser fazer amor comigo, no posso apress-la. Tenho que respeitar o ritmo dela. Mas o desejo que estou sentindo  grande demais. Se ao menos pudssemos conversar abertamente sobre essa situao que estamos vivendo, tudo seria muito mais fcil. Se eu tivesse a coragem de lhe dizer que a amo... No, no posso continuar em silncio. O silncio s vai fazer aumentar o constrangimento que existe entre ns dois!"
	O que voc achou da festa?
	Foi linda. A Beth caprichou em tudo. No esqueceu um detalhe sequer.
	Ela ficou muito feliz com a nossa unio.
	Beth me disse que podia jurar que voc jamais se casaria.
	Beth tinha razo para pensar assim.
	Por qu?
	Eu nunca tive uma namorada de verdade na vida.
	Nunca?  ela perguntou espantada.
	Nunca. Sempre me senti extremamente rejeitado, cheio de complexos.
	Mas voc  um homem muito bonito, Bob.
	No basta ser bonito, Lya, .a gente tem que se sentir bonito. E esse no  o meu caso.
	Quando o conheci, eu o achei esnobe e muito senhor de si.
	Insegurana. Esse meu jeito quieto, calado, no passa de pura insegurana.
	Quem diria!
	Pois ...
	Acredite, Bob, nunca poderia imaginar que voc fosse um homem tmido.
	At que eu melhorei bastante. Houve poca que eu passava dias sem conversar com ningum.
	Nem com os seus clientes?
	Bem, com eles eu precisava conversar. Mas era extremamente lacnico.
	E isso no os afastava?
	Felizmente, no. Pelo jeito eles estavam interessados nos meus trabalhos e no nas minhas palavras.  Ele fez um pausa e perguntou:  E voc, Lya, teve muitos namorados?
	Alguns.
	Era de se esperar. Voc  muito bonita.
	Como voc acabou de dizer, Bob, no basta ser bonito: precisamos nos sentir bonitos.
Ele riu.
	 verdade. Eu tambm nunca me senti bonita.
	Como pode dizer uma coisa dessa?
	E a mais pura verdade.
	E alguns desse namoros que teve foi srio?
	O ltimo foi, sim. O nome do rapaz era John e at pensei em me casar com ele.
	E por que no se casou?
	John, descobri depois de um ano de relacionamento, era uma pessoa muito egosta e imatura. Para ele o que importava era apenas a carreira.
	E o que ele fazia?
	John  ator.
	Voc morava em Hollywood...
	Morava, sim. Mas no gostava muito da vida de l. Para mim era uma vida muito superficial.
	E por que voc terminaram a relao?
	Bem, eu queria uma famlia, filhos, e John queria a fama. Para consegui-la, ele no media esforos e fazia qualquer coisa. Um belo dia, eu o acompanhei at onde estavam rodando um filme, no interior do Arizona, num local onde no havia absolutamente nada. De repente, comecei a sentir muitas dores.  Ela deu um profundo suspiro.  Eu estava grvida e no sabia. Pedi ao John que me levasse a um mdico. Mas ele, alegando que a cidade mais prxima ficava longe, nem se importou com o que eu estava sentindo. Se no bastasse, naquela noite, resolveu que iria seduzir a filha do diretor, que estava visitando as locaes da filmagem, e me deixou sozinha no trailer. Desesperada, eu no sabia o que fazer. No meio da madrugada, sai para procur-lo e o encontrei aos beijos e abraos com a moa. John no me viu. A, bati na porta do trailer da atriz principal, por sinal uma mulher muito famosa, e pedi ajuda.
	E ela?
	Ela no pensou duas vezes: pegou uma caminhonete e me levou para o hospital.
	E o que estava acontecendo com voc?
	Eu estava abortando.
	Que coisa mais terrvel.
	Infelizmente, a situao se complicou e eu tive uma forte infeco. Depois disso foi que o mdico me disse que eu nunca mais poderia ter filhos.
	E o John?
	Nunca mais eu quis v-lo. A, resolvi me mudar para White Star. Queria morar num lugar tranqilo, onde pudesse viver em paz, apesar da minha dor.
	E voc j conhecia White Star antes?
	Estive aqui com o meu pai e com a minha me quando era adolescente.
	Seu pai j  falecido, no?
	Infelizmente, sim. Ele faleceu h dez anos. Minha me se casou de novo e est morando no Japo.
	No Japo?  Bob perguntou espantado.  E voc no se comunica com ela?
	Raramente.
	Por qu?
	No gosto do marido dela. Ele  um alto executivo e s pensa em dinheiro.  um homem completamente diferente do meu pai.
	E como era ele?
	Quem? Meu pai?
	. Como era o seu pai?
	Meu pai era um homem fantstico.  Lya sentiu os seus olhos se encherem de lgrimas.  Tenho certeza que voc gostaria dele.
	Ele trabalhava com qu?
	Meu pai era mdico.
	Mdico? Jamais imaginei que seu pai fosse mdico.
	Era, sim. E dos bons. Meu pai era um homem muito respeitado pela comunidade mdica.
	E qual era a especialidade dele?
	Neurologia.
	E como foi que ele faleceu?
	Meu pai faleceu em um acidente areo. Ele tinha ido a um congresso em Berlim. Depois do trmino do congresso, resolveu ficar dois dias em Paris para ver um paciente de um colega que havia encontrado em Berlim. O avio caiu.
	Meu Deus, que tristeza!
	Eu fiquei muito abalada com a morte do meu pai. Ele, alm de um profissional renomado, tinha a alma de um artista. Era modesto, calado e adorava tocar piano.
	E voc aprendeu a tocar piano?
	Aprendi, sim.  Ela sorriu de maneira triste.  Michael e eu aprendemos piano com ele.
	Quer dizer que voc  pianista?  ele perguntou, surpreso.
	No, eu no sou pianista. Apenas sei tocar um pouquinho.
	E como foi que resolveu fazer contabilidade, Lya?
	Bem, depois da morte do meu pai, me senti totalmente perdida. Comecei a ir mal na escola, a no me interessar por nada. At que um dia, decidi que tinha que enfrentar a vida sem o meu pai. Terminei o colegial e...
	Foi fazer cincias contbeis  ele completou-lhe a frase.
	Tambm.
	Tambm? Como assim, Lya?
	Comecei a fazer cincias contbeis pela manh e,  tarde, fazia arquitetura.
	O qu?  Bob no pde conter o espanto.  Voc estudou arquitetura?
	Eu me formei em arquitetura.
	Eu no acredito!
	Pois pode acreditar: me formei em arquitetura e em cincias contbeis.
	E...
	Voc est querendo saber o que aconteceu depois, no est, Bob?
	Estou.
	Bem, no dia do baile da minha formatura de arquitetura, eu conheci o John, que j era um ator de uma certa fama em Hollywood. Larguei tudo e fui morar com ele.
	Voc  louca!
7 No, eu fui louca. Agora sei exatamente o que quero da minha vida.
	E voc morava onde?
	Em Nova York. Nasci e fui criada em Nova York.
	Estou espantado com essa histria toda. Voc nunca comentou nada sobre o seu passado.
	Tambm sou uma pessoa calada e muito tmida, Bob.
	E acha que no sei disso? E depois do John? No teve mais nenhum namorado?
	No, depois do John jamais quis me relacionar com outro homem.
Ao ouvir aquilo, Bob estremeceu.
"E eu... Ser, ser que vou conseguir dar um pouquinho de felicidade  Lya? Ser que fiz bem em me casar cora ela? Afinal, o que eu sou? Um simples marceneiro e..."
	Por que voc se calou?  ela quis saber.
	Nada, eu...
	Por favor, Bob, me diga a verdade. Ele pigarreou e resolveu dizer:
	Tenho medo de decepcion-la.
	Voc jamais vai me decepcionar.
	Mas Lya, eu no estudei, eu...
	Bob, voc tem uma coisa muito rara hoje em dia: carter. E isso, para mim,  a nica coisa que importa. Voc  um homem de verdade.
Os dois continuaram conversando e, com mais detalhes, ela contou a Bob sobre o pai.
Ao chegaram no estacionamento do hotel, estavam bem mais relaxados.
Aps terem se registrado no hotel, Lya e Bob seguiram para a sute. Diante da porta, aps t-la aberto, ele disse para Lya:
	Estou com vontade de fazer uma coisa.
	O qu?
	Isso!  Ato contnuo, Bob a ergueu nos braos e entrou na sute.  No  assim que um noivo deve agir?
Lya, que no esperava por aquela atitude, caiu na risada. Ele, ento, depois de ter percorrido dois cmodos, entrou no quarto e a colocou sobre a cama de casal.
	Voc  muito forte, me ergueu como se eu fosse uma bonequinha.
	De uma certa maneira voc , sim, uma bonequinha. Mas o seu jeito frgil, esconde uma mulher muito forte.  Ele olhou para a porta.  Bem, vou pegar as nossas maletas.
Ao voltar, ele estava com as maletas nas mos.
	E agora?  Bob perguntou com um sorriso no lbios.
	Bem, agora...  Ela titubeou.  Bem, acho que vou tomar um banho.  Lya levantou-se e abriu a maleta que ele havia colocado sobre a cama.
	Essa sute  fantstica. Os ricos sabem como se tratar.
A sute era dividida em quatro cmodos. Uma ante-sala, com uma mesinha e um jogo de poltronas e sof, uma sala de jantar finamente decorada, o quarto e o banheiro.
	Voc j tinha vindo aqui antes?  Lya quis saber.
	No, imagine se tenho dinheiro para tanto luxo.
	Ento, como sabia onde ficava o quarto?
	Instinto.  Ele riu.  Puro instinto.
	Sei...
	Venha  ele estendeu-lhe a mo , vamos at  janela.
Lya segurou a mo de Bob e os dois foram para junto da janela.
	O cu hoje est maravilhoso. Que lua! Sabe, Bob, que s vezes duvido que o homem j tenha chegado na lua?
	Eu tambm. E j faz muitos anos que isso aconteceu.
	 incrvel o desenvolvimento tecnolgico que ns alcanamos.
	Infelizmente, o mesmo desenvolvimento no aconteceu nos relacionamentos humanos.  Ele colocou o brao sobre os ombros de Lya.
E, calados, os dois ficaram olhando para o cu.
Bob, depois de ter tomado conhecimento do que acontecera com Lya, havia ficado bem mais preocupado. E no sabia como agir. A vontade que tinha era de tom-la nos braos e de fazer amor com ela. Mas sabia que precisava se conter. Qualquer atitude precipitada poderia causar danos irreparveis quela unio que apenas se iniciava.
Lya, por sua vez, tinha vontade de abra-lo e de lhe dizer o quanto o desejava.
"No, eu no posso fazer isso. Se eu agir de maneira espontnea e der vazo aos meus sentimentos, Bob pode pensar que me casei com ele apenas por sexo. E no quero que isso acontea. Quero que ele se sinta amado, respeitado."
Bob aproximou a cabea do pescoo delicado e disse baixinho:
	O seu perfume  delicioso.  No resistindo a tanto fascnio, ele a beijou de leve na nuca. Em reposta, Lya estremeceu.
	Voc est com frio?  ele perguntou, num tom de voz zombeteiro.
	No  bem frio que eu estou sentindo.
	Que coincidncia, eu tambm no estou sentindo frio; muito pelo contrrio.
	 bom saber.
	Entendi direito o que acabou de falar, Lya?  Ele continuava fazendo de tudo para se conter.
	Entendeu. Entendeu, sim.
Bob a segurou pelos ombros e fez com que ela o encarasse.
	Voc sabe que nada precisa acontecer entre a gente hoje. Se quiser esperar at que a gente se sinta mais  vontade...
	Bob, voc tambm est se sentindo meio intimidado com a nossa situao?
	Muito.
	Eu tambm. No sei o que falar, no sei como agir.
	Acho que ns dois estamos sentindo a mesma coisa, Lya.
	Ser que ns nos precipitamos?
	Como assim?
	No sei, talvez devssemos ter esperado mais tempo para nos casar.
	No, no acredito nisso. E esse constrangimento entre ns dois vai acabar. A nica coisa que no quero  pression-la.
	Voc no est me pressionando. Apesar do constrangimento, sinto-me muito  vontade ao seu lado.
		Isso  maravilhoso de ouvir.  Ele beijou-lhe de leve os lbios. No se contendo, Lya segurou-lhe a cabea e beijou com avidez aquela boca que tanto desejava.
Bob, finalmente, se sentiu  vontade para demonstrar-lhe o quanto a queria.
Quando os dois deram por si, estavam na cama trocando carinhos ntimos. Porm, o desejo que Bob sentia aumentava mais e mais. Num mpeto, livrou-a das roupas e despiu-se. Ao voltar a abra-la, temeu que estivesse indo rpido demais e interrompeu as carcias.
	O que aconteceu?  ela, preocupada, mas ardendo em desejo, perguntou.
	Tenho que ir com mais calma.
	No, voc no tem que se reprimir. V em frente, Bob, eu quero ser sua.
Aquilo no era um pedido, mas uma splica, ele constatou. Lya tambm o desejava com desespero.
Bob, ento se colocou sobre ela mas, quando estava para penetr-la, hesitou.
	Continue, Bob, continue...
Naquele instante ele deixou de pensar e passou apenas a sentir. Num movimento brusco de quadril, a penetrou por completo e, instantes depois, viu que o orgasmo era inevitvel. Porm, ao mesmo tempo em que sentia aquela energia imensa percorrer-lhe o corpo, Bob sentia que Lya no o acompanhava.
	Me desculpe  ele disse baixinho, junto ao ouvido
de Lya.  Me desculpe... Eu...
Uma forte contrao de corpo interrompeu-lhe a frase e ele gemeu de prazer.
	Oh, Lya, Lya...
Ento, Bob a abraou e ficou calado, respirando com extrema dificuldade. Minutos mais tarde, ele voltou a dizer:
	Me desculpe, fui muito egosta.
	Voc no tem do que de se desculpar, Bob.
	Tenho. Tenho, sim. Agi de maneira muito precipitada. De repente comecei a seguir o meu ritmo, as minhas necessidades e me esqueci de voc.
	Voc no se esqueceu de mim.
	Mas eu queria que a nossa primeira vez fosse perfeita.
	E ela foi perfeita, fique tranqilo.
	No, eu tambm queria lhe dar muito prazer.
	Eu senti muito prazer, Bob.
	Mas voc no atingiu o orgasmo.
	Desta vez, no. Mas ns teremos muitas outras vezes.  Ela acariciou-lhe a cabea.  Apenas estamos comeando, Bob. Apenas estamos comeando.
Bob, que ainda se encontrava sobre Lya, beijou-a na boca com suavidade e se colocou ao lado dela.
	Voc  uma pessoa incrvel.  Ele a abraou com
carinho.  Tive muita sorte em encontr-la.
	E eu tive muita sorte em encontrar voc.
Bob ficou um instante pensativo, e depois disse:
	Fazia muito, muito tempo que eu no me relacionava com uma mulher.
	Eu tambm... Fazia muito tempo que eu no me relacionava com um homem.
	Apesar do meu fiasco de h pouco, Lya, sei que posso faz-la muito feliz.
	No houve fiasco nenhum aqui dentro. Bob, pare de se comportar como se o mundo tivesse cado. O que aconteceu com voc  normal.
	Mas eu no gostei nada do que aconteceu.
	Voc est parecendo um garotinho frustrado.  Ela riu.
	E  exatamente assim que eu me sinto: como um garotinho frustrado.
	Que tal, ento, esse garotinho descansar um pouco?  Lya sugeriu e depois de beij-lo, recostou a cabea sobre o peito forte.
CAPITULO XII

A vida era mesmo fantstica! 
Michael tinha partido para San Francisco convencido que Bob era um homem excelente e que Lya havia feito muito bem em se casar com ele. Na hora da despedida, o rapaz prometeu que voltaria logo e Lya pde perceber uma certa troca de olhares entre ele e Beth. Naquele instante, Lya achou que algo havia acontecido entre os dois. Mas no fez nenhum tipo de comentrio. Afinal, no fazia parte de sua personalidade se meter na vida alheia.
Nas duas semanas que se seguiram ao casamento, Lya se dedicou a arrumar o apartamento de Bob. O difcil foi encontrar lugar para tantos presentes que haviam ganho. A vida sexual dos dois tinha se tornado uma maravilha. Insacivel, vrias vezes, durante o perodo de trabalho, Bob havia ido para o apartamento e os dois tinham feito amor. E Lya nunca se sentira to viva, to mulher. Bob Gray tinha um jeito todo especial, uma percia ao toc-la, que Lya jamais pensara existir. E tambm nunca havia pensado que pudesse se relacionar sexualmente to bem com algum. Bob tinha o dom de deix-la  vontade, tinha o dom de descobrir-lhe os desejos mais secretos e, depois da primeira noite, nunca demonstrara nenhum tipo de falso pudor.
Para ele o que interessava era a comunho de corpos, de almas, a comunho dos sentidos, nada mais.
Num final de tarde, quando Lya dava mamadeira para Kate, Tyler apareceu no apartamento.
	Tudo bem com voc?  ela quis saber.
	Tudo bem.  O menino sentou-se numa cadeira e ficou vendo a garotinha mamar.
Lya, apesar de estranhar o silncio de Tyler, se manteve calada. De repente, ele disse:
	Ela gosta muito de mamar.
	E voc gostava de mamar?
	Acho que gostava.  O garoto ficou de novo em silncio. A, Lya resolveu perguntar:
	E como esto as coisas na escola?
	Tudo bem.
Ela teve vontade de rir. Tyler, quando no estava se sentindo  vontade, sempre respondia s perguntas daquela maneira lacnica.
	Quando a Kate terminar de mamar, voc quer peg-la um pouquinho no colo?
	No.
"Pelo menos ele no disse de novo tudo bem."
	Por qu, Tyler?
	Porque eu no quero.
	Voc no acha que ela cresceu bastante?
	Cresceu.
Lya estranhou a maneira de Tyler responder s perguntas. At bem pouco tempo o menino, quando o assunto era Kate, sempre havia se mostrado entusiasmado.
	Voc brigou com a sua me?
	No.
	Ento, voc brigou com o seu tio?
	No, eu tambm no briguei com o meu tio. Ele no liga mais para mim.
"Ah.... Cimes! Ele est com cimes. Mais cedo ou mais tarde, isso teria de acontecer."
	Quer dizer, ento, que o seu tio no liga mais para voc.
	E. Ele no liga.
	Mas o Bob adora voc, Tyler.
	Eu acho que no adora nada. Depois que Kate e voc vieram morar aqui, ele nunca mais me ensinou.
	E o que ele estava lhe ensinando?
	A lixar madeira.
	 mesmo! Eu tinha me esquecido.
	Todo mundo est se esquecendo de mim.
	No  verdade, Tyler. Todos aqui gostam muito de voc.
	 nada.  Aflito, o menino passou a mo pelo rosto.  Agora ningum mais liga para mim.
	Eu acho que voc est enganado.
	Se voc acha...  O menino deu de ombros.
	Quer apostar que o seu tio continua amando muito voc?
	No.
	Ento, mesmo assim, eu vou lhe dizer uma coisa: hoje pela manh, ele me pediu para fazer um jantar-zinho especial para voc.
	Para mim?  Tyler perguntou espantado.
	Exatamente, garoto: para voc.
	E o que voc vai fazer para mim?  Tyler agora estava curioso.
	Pizza.
	Pizza?  Os olhos de Tyler brilharam.
	Viu s? E foi o seu tio quem pediu para eu fazer.
	Pizza de qu?
	De muzzarela.
	Eu s gosto de pizza de muzzarela.
	E eu no sei disso?  Lya riu.  E no final de semana vou fazer uma outra coisa gostosa para voc.
	O qu?
	Bolo.
	De chocolate?  Tyler se levantou e se aproximou de Lya.
	Acertou, mocinho.
	E foi o meu tio quem pediu para voc fazer bolo de chocolate para mim?
	Foi.
	Ento, o meu tio continua gostando de mim?
	Mas  claro que sim. O seu tio adora voc.
	Ento, vou l no oficina conversar com ele.  O garoto saiu correndo.
Ao ficar sozinha, Lya disse baixinho:
	Preciso conversar seriamente com o Bob. Tyler no pode se sentir negligenciado...
Naquela noite, depois que Tyler e Beth foram para casa, satisfeitos com o jantar, Lya teve uma longa conversa com Bob. E ele viu que, realmente, precisava dar mais ateno ao sobrinho.
	Se no fizer isso, ele pode continuar se sentindo rejeitado.
	Voc tem toda razo, querida. E no quero que, por nenhum momento, Tyler se sinta sozinho.
	Ele adorou o aqurio com os peixinhos.
	Eu havia lhe prometido que iria comprar o aqurio e os peixinhos, mas acabei me esquecendo.
	Ns precisamos dar ao garoto muito mais ateno do que lhe dvamos antes.
	Voc est absolutamente certa.
Os dias foram passando. Quando fazia um ms que os dois tinham casado, Lya recebeu um telefonema de Susy.
Lya, que por alguns momentos at se esquecia que Kate no era sua filha, se assustou ao ouvir a voz da garota.
	Como est Kate?  Susy quis saber.
	Ela est tima. E voc?
	Eu estou pssima.
	Por qu, Susy?
	Briguei com o meu namorado.
	Que pena!
	 uma pena mesmo. Mas o Jonny fica o tempo todo mudando de opinio. No dava para continuar. Um dia ele me diz que me ama. No outro, diz que no ama mais. Um dia ele diz que quer criar a nossa filha, no outro j diz que vai embora para o Texas sozinho. A, ontem, eu terminei com ele.
	Que coisa mais chata.
	E voc? Quando vai se casar com aquele moo? Qual  mesmo o nome dele?
	Bob.
	Isso: Bob. Quando  que vai se casar com ele?
	Ns j nos casamos, Susy.
	 mesmo?  a garota perguntou espantada.  Quando?
	Faz um ms.
	Eu no fiquei sabendo de nada.
	Pois ...  Lya no sabia o que dizer.
A garota ficou alguns segundos sem se manifestar. Ento, disse, depois de um longo suspiro:
	Bem, agora, voc pode ficar com Kate.
	Quer dizer que voc...
	Agora a minha filha tambm vai ter um pai de verdade.
Lya, feliz, tinha a sensao que estava sonhando. A garota continuou:
	Sabe, Lya,  muito importante para uma criana ter um "pai. No adianta ter s uma me. A criana tambm tem que ter um pai.  Susy fez uma pausa e disse:  Meu pai foi embora de novo.
"Meu Deus, que situao familiar mais triste."
	Meu pai se apaixonou por uma garota da minha idade e diz que vai se casar com ela.
	Sei...
	Ento, o melhor mesmo  Kate ficar com voc e com Bob. J que estava pensando em d-la a um outro casal... Pelo menos voc dois j conhecem minha filha e gostam dela. Vocs no gostam dela?
	Ns adoramos a Kate.
	Ento... Agora eu vou desligar. Tudo o que eu queria para minha filha era um pai.  Sem dizer mais uma palavra, a garota cortou a ligao.
Lya, meio atarantada, ficou olhando para o aparelho.
	No acredito que tudo terminou.  bom demais para ser verdade.  Ela comeou a chorar de emoo.
	Aconteceu alguma coisa?  Bob, que tinha acabado de entrar na sala, perguntou.
	Aconteceu.  Lya o abraou.  Agora Kate vai ser nossa.
	Mas ela j  nossa.
	Voc sabe que ela ainda no era nossa.  Ela deu um profundo suspiro.  Acabei de falar com a Susy. Ela brigou de novo com o namorado e o pai resolveu ir embora'de novo para se casar com uma moa bem jovem. Quando ela ficou sabendo do nosso casamento, resolveu que vamos ficar com Kate.
	Que coisa mais fantstica!  Bob sorriu feliz.
	Felizmente, tudo acabou bem. Agora  s preparar os papis para a doao definitiva. Eu sabia, eu sabia que isso iria acabar acontecendo.
	Voc merece, Lya. Merece ficar com Kate.
	Ns merecemos isso, Bob.
	Essa  melhor notcia que tive em toda a minha vida.  Ele a segurou pela mo e a puxou.  Venha, precisamos comemorar.
Naquela noite, os dois se amaram com extrema paixo. Mesmo assim, faziam questo de esconder a paixo que sentiam um pelo outro. 
Uma semana se passou depois do telefonema de Susy. Lya se sentia uma outra pessoa. Estava mais relaxada, mais suave e tinha a sensao que seu corpo no lhe pertencia, tamanha era a leveza que a invadira. Era muito bom olhar para Kate e saber que passaria com ela o resto de sua vida.
Aos poucos, Lya estava retornando ao trabalho. Agora o apartamento estava todo em ordem, a vida seguia mansa e j tinha tempo para se dedicar aos negcios.
Eram seis horas da tarde. O telefone tocou. Lya, que estava terminando de fechar umas contas o atendeu meio displicentemente, mas se assustou ao ouvir a voz do advogado.
	Tenho ms notcias para lhe dar  ele foi direto ao assunto.
	Ms notcias?  Lya sentiu o corao dar um salto dentro do peito.
	: ms notcias. Recebi um telefonema do advogado da Susy.
	E o que ele queria?  Lya estava muito aflita.
	Parece que a moa desistiu de tudo e quer a menina de volta.
	O qu?
	 exatamente isso que voc ouviu, Lya. Susy agora tem certeza que  capaz de conseguir criar a filha sozinha.
	Mas ela no tem a menor condio para isso!
	Eu sei disso, voc sabe, mas parece que a menina no sabe.
	Mas Susy  uma criana. Jamais vai conseguir criar Kate sozinha.
	Ela"est muito confusa.
	Ela no est muito confusa!  Lya protestou.  Ela sempre esteve muito confusa.
	Voc tem toda razo...
	Mas na semana passada ela me disse...
	Sei exatamente o que ela lhe disse  o advogado a interrompeu.  Mas a garota mudou de idia.
	No, eu no acredito!
	Pois pode acreditar! E a audincia foi adiada para o dia 22.
Desesperada, Lya continuou conversando com o advogado.
Ao desligar o telefone, ela estava inconsolvel.
"Meu Deus, o que a Susy est fazendo comigo  muito cruel. Ela, pelo menos, deveria ter um pouco de considerao para comigo. Sei, sei que ela  a me verdadeira de Kate, mas foi ela quem ofereceu a garota em adoo. E agora... Tenho que ficar calma. Calma e lcida. No posso perder o controle da situao."
Lya deixou tudo que estava fazendo e foi at a casa da Beth. Depois de conversar um pouco com a bab, pegou Kate e saiu para andar.
"No posso acreditar, minha querida, que vou perd-la. No posso acreditar que nunca mais vou sentir o seu corpinho contra o meu, no vou ver esses olhinhos lindos, o seu rostinho... E, pelo jeito, no vou poder fazer nada para mant-la comigo. Para mim, meu amor, voc j  minha filha. Uma filha que nasceu do amor que tenho dentro do meu corao. Eu queria poder v-la crescer, se desenvolver, se tornar uma moa bonita e bem-educada. Mas no vai ser possvel. E voc nunca vai se lembrar de mim. Talvez nem mesmo venha saber que um dia eu existi..."
As lgrimas comearam a correr pelo rosto de Lya. Depois de muito caminhar, ela resolveu voltar. Bob a esperava em frente a Station.
	O que foi que aconteceu?  ele perguntou aflito.
	Tudo. Aconteceu tudo.  Lya correu para o apartamento. Ele a seguiu.
No quarto, Lya colocou Kate no bercinho e comeou a soluar.
	O que foi que aconteceu?  Bob a abraou.
	Tudo. Eu lhe disse que aconteceu tudo.
	Por favor, Lya, no fique desse jeito e me conte o que aconteceu.
	Recebi um telefonema do meu advogado. Pressentindo o que havia acontecido, ele perguntou:
	O que ele queria?
	Me dar um triste notcia.
	E que notcia foi essa?
	A Susy quer Kate de volta.
	Isso  brincadeira!  ele exclamou indignado.
	No, no  uma brincadeira! Antes fosse! Vamos para a sala, no quero que Kate receba essa carga de
energia negativa.
Bob, muito srio, a acompanhou at a sala e disse:
	Essa menina no pode fazer isso conosco.
	Pode. Pode, sim. Tanto pode que est fazendo.
	Mas no  justo.
	Eu j nem sei o que  justo, ou no. S sei que ela resolveu criar a filha sozinha.
	Ela o qu?
	Susy resolveu criar Kate sozinha.
	Uma criana criando outra criana? Meu Deus...
	Mas o meu advogado disse que esse processo, como envolve dois estados da federao, pode se arrastar por muito tempo.
	E mesmo?  ele ironizou.   mesmo? O processo se arrasta e voc se arrasta junto com ele?  isso?
	Por favor, Bob, no fale desse jeito comigo.
	E de que jeito voc quer que eu fale, hem? Quer que eu sorria? Amo essa menina como se fosse minha. Meus planos futuros a incluem. A, vem uma desmio-lada e resolve controlar a minha vida. Acha que posso aceitar isso com alegria?
	Bob, eu...
	O que vai me dizer, Lya? Que tem pena da Susy?
	Tenho, no fundo eu tenho, sim, muita pena dela.
	Mas ela no tem a menor pena, a menor compaixo por voc. E se quer saber, no vou suportar essa situao! No vou mesmol
	O que est querendo dizer com isso?
	O que estou querendo dizer?  Ele deu uma risada histrica.  O que estou querendo dizer  que, de repente, estou sentindo vir por terra, todo o sonho que estava construindo. E isso no  nada justo. Amo Kate como se fosse minha filha. Ou melhor, ela  minha filha!
	Bob, eu tambm estou desesperada.
	No d, Lya, mas no d mesmo para continuarmos desse jeito. Uma hora a Susy diz uma coisa, depois diz outra, para mudar de novo no momento seguinte. O que ela est querendo? Controlar as nossas vidas. Ser que ela est sentindo muito prazer em nos controlar como marionetes? O que ela quer? Dinheiro? Ser que foi isso o que ela sempre quis e a gente no percebeu?
	No, ela seria incapaz de pensar numa coisa dessa.
	Como voc sabe? Ser que a conhece direito?
	No, eu no a conheo direito. Mas acho que ela seria incapaz de uma coisa dessa.
	Voc  uma pessoa muito crdula, Lya. Muito crdula.
	Mas ela apenas  vtima das circunstncias.
	E voc? E voc  vtima de qu? Voc, Lya,  vtima das mesmas circunstncias. Ou ser que no  capaz de enxergar isso?
	No, eu no sou capaz de enxergar isso!  ela gritou.
	Voc no quer enxergar isso. No d para ficar contemporizando tudo o que nos acontece na vida.
	E o que quer que eu faa? Que desista da Kate? Que a devolva amanh  me dela?
	No pensei nessa hiptese mas, nas atuais circunstncias...
	Nem pense numa coisa essa! Nem pense!  ela voltou a gritar.  Vou lutar pela a minha filha at o fim! Tenho certeza que o juiz vai me dar ganho de causa.
	Eu no tenho tanta certeza assim. E tambm no tenho tanta certeza que suportarei essa agonia por mais tempo. Se  para perder Kate, prefiro perd-la agora.
	Mas um dia voc me disse que eu teria que lutar at o fim.
	Posso at ter dito. Mas, com toda certeza, naquele tempo no estava to envolvido emocionalmente com a garota como estou agora.
	No vou desistir, Bob.
	E eu no sei se vou suportar tanto sofrimento.  Ele saiu da sala e foi para a oficina.
Lya, sentindo-se totalmente desamparada, jogou-se no sof chorando.
"Quero que Kate fique comigo! Mesmo que eu fosse uma mulher que pudesse ter filhos, eu iria querer continuar sendo a me dela. Essa menina  muito importante para mim. No, eu no vou desistir. Apesar de tudo, ainda tenho f na justia. Mas no esperava essa atitude do Bob. Ele quer que eu desista da Kate. Por qu? Esperava que ele me confortasse, me desse apoio numa hora to difcil como essa.. A, de repente..."
Kate comeou a ouvir barulhos vindos da oficina.
	Ser que ele vai trabalhar agora?  ela se perguntou.  No, ele no pode fazer isso comigo.
Naquela noite, Bob trabalhou at o dia amanhecer.

CAPITULO XIII

Os dias que se seguiram no foram nada fceis para Lya. Bob, sempre taciturno, mal lhe dirigia a palavra. Ela, por sua vez, estava temendo muito pelo prprio casamento. Se a situao continuasse daquele jeito, na certa os dois acabariam se separando. E aquilo era a ltima coisa que Lya queria. Mas tambm no queria perder Kate. No, no podia deixar seu destino nas mos de uma adolescente problemtica que, pelo jeito, no sabia o que queria da vida. Era claro que Lya entendia toda a situao vivida por Susy. Mesmo assim, de uma certa maneira, j adquirira, pelo menos era isso que acreditava, alguns direitos sobre aquele ser frgil, que crescia no aconchego do seu lar. Nada iria demov-la da idia que j era, sim, a me da garotinha. Se o juiz lhe dissesse que precisava entregar Kate  Susy, ela o faria. Antes, porm, continuaria lutando. Lutando inclusive contra o Bob.
Bob, muito triste, tinha acabado de tornear o p de uma cristaleira. Ele olhou para o que fora antes apenas um pedao de madeira e no sentiu a imensa satisfao que acontecia sempre que conseguia fazer uma bela pea. Depois da discusso que havia tido com Lya, seu mundo parecia ter perdido toda a alegria.
"O que aquela garota est fazendo conosco  de uma maldade muito grande.  claro,  claro que entendo perfeitamente a situao que Susy vive. No deve ser nada fcil ter um filho e precisar do-lo a estranhos. Mas, uma vez que a deciso foi tomada, ela deve ser mantida. Primeiro a garota no se preocupou em saber se Lya tinha ou no um companheiro, depois queria um pai para Kate. Depois... Bem, depois, diz que est tudo bem, para voltar atrs logo em seguida. No, por mais que eu entenda a situao dessa adolescente, no posso concordar com ela. Mas o que eu pedi  Lya foi desumano. No d, no d mesmo para, de repente, ela entregar Kate. S que eu no tenho a menor idia do que aconteceu comigo para falar com a mulher que eu amo daquele jeito autoritrio. Deveria ter conversado com Lya de maneira diferente, com calma, me manter solidrio com esse momento difcil que ela est vivendo. Mas, na verdade, no quero perder Kate. No consigo nem pensar numa hiptese dessa. Quantas e quantas vezes me imaginei com ela na sada da escola... Quantas e quantas vezes me imaginei com ela festejando sua entrada na universidade... Cheguei at a me ver com os meus netinhos..."
Inconformado, Bob passou as mos pela cabea.
"O que a Susy vai oferecer  Kate  uma famlia totalmente desestruturada e um futuro incerto. E no quero isso para Kate, no quero isso de jeito nenhum!"
Com os olhos marejados, Bob colocou sobre a mesa o p que acabara de tornear. Depois, continuou com o trabalho.
Quando faltava apenas uma semana para a audincia, Lya acordou se sentindo meio estranha. Uma hiptese apareceu-lhe na mente mas ela imediatamente a descartou e foi preparar a mamadeira da Kate. Bob, que passara a dormir no sof da sala depois que haviam discutido, j tinha ido para a oficina.
"A maneira que ele encontrou para fugir da situao foi, como sempre, trabalhando. Bob s pra de trabalhar quando vai dormir. E ele tem dormido pouqussimo. As vezes tenho a sensao que vai sucumbir diante de tanta infelicidade."
Lya terminou de preparar a mamadeira e foi para o quarto de Kate. A garotinha, j acordada, ao v-la deu-lhe um sorriso meigo.
	Voc  a coisinha mais linda desse mundo, sabia?  Lya acariciou o rostinho da garota.  Como ? No vai falar comigo? Pelo menos no vai me dar um bom dia? Bem, j eu no vou ter resposta nenhuma, acho que vou lhe dar a mamadeira.
Lya pegou a garotinha no colo, sentou-se em uma poltrona e comeou a amament-la.
E, como acontecia sempre, seus olhos se encheram de lgrimas. Por mais que tentasse ser forte, era muito difcil saber que mais cedo ou mais tarde, poderia perder aquele ser que lhe dava tanta alegria.
	Sabe, meu anjinho, pensei que poderamos ser muito felizes juntas. A, de repente, a separao est nos ameaando, pairando sobre ns. J lhe disse um dia que voc n nasceu da minha barriga, no disse?
Mas para mim isso no tem a menor importncia. Voc  a minha filha muito querida, a filha que eu pedi a Deus.
As lgrimas comearam escorrer pelo rosto de Lya. E, devagar, ela comeou a soluar. Era um choro manso, o choro dos impotentes, daqueles que antevem o futuro e no tm a menor possibilidade de mud-lo.
"No tenho a menor idia do que ser a minha vida sem voc, minha queridinha. Sonhei tanto em v-la crescer feliz, forte e saudvel. Sonhei tanto com um futuro seguro e lindo para voc. E agora..."
Lya continuou dando a mamadeira para Kate. Quando terminou de mamar, a garotinha soltou o bico da mamadeira e a encarou.
	O que foi? O que est querendo me dizer, hem?  Com dois dedos, ela segurou de leve uma das bochechas de Kate. E a garotinha sorriu mais uma vez.
	Ser que est querendo me dizer para manter a calma, que tudo vai se resolver, filhinha? Ser que voc sabe de coisas que eu no sei?
Muito emocionada, Lya segurou Kate contra o peito durante um bom tempo. Depois, colocou-a no bercinho e foi para a Station.
Na manh seguinte, Lya acordou se sentindo pior do que no dia anterior. Aps ter dado mamadeira  Kate, resolveu que iria procurar o seu mdico. E foi exatamente o que fez. Qual no foi a sua surpresa, quando o mdico lhe disse, aps um longo exame:
	Voc est grvida, Lya.
	Eu? Grvida? Isso  impossvel dr. Jonathan.
	Para a natureza, nada  impossvel.
	Mas...  Lya estava boquiaberta.
	Sei o que voc vai dizer, mas j vi alguns casos iguais aos seus.
	Doutor, depois daquele aborto que tive o mdico me assegurou que eu jamais poderia conceber.
	E eu concordei com o diagnstico do meu colega, est lembrada?
	Claro que estou.
	Acontece, Lya, que voc est realmente grvida.
	 inacreditvel.
	Para voc ver como  a natureza.
Lya, que havia levado Kate com ela ao mdico, saiu do consultrio como se estivesse levitando. Aquela notcia era boa demais para ser verdade. Mas no tinha motivo para duvidar do mdico que era muito conceituado.
Na rua, segurou Kate com mais firmeza contra o peito e disse baixinho:
	Voc vai ter um irmozinho.
A, uma vozinha vinda do fundo do seu crebro lhe perguntou:
	No ser uma irmzinha?
Lya riu, como no ria h muito tempo.
	Para mim tanto faz... O importante  que eu vou ser me de novo!
Sorrindo muito, ela resolveu dar uma volta pela cidade. Entrou em vrias lojas de artesanato e depois foi almoar num restaurante.
Assim que entrou no estabelecimento, um dos garons, muito solcito, lhe ofereceu um carrinho para beb.
Lya acomodou Kate no carrinho e foi sentar-se.
Depois de ter feito o pedido, ela sentiu uma dor intensa dentro do peito.
"Deveria estar comemorando com o Bob. Mas ser que ele ficar feliz ao saber que ser papai? No sei... O Bob est to estranho, nem parece o mesmo homem com quem eu me casei. Ele voltou a ser o homem que conheci: taciturno, ausente, preocupado apenas com o trabalho. E eu o amo mais a cada dia que passa. Sinto uma falta imensa da sua fala mansa, dos seus carinhos... E Bob ajudou a acontecer dentro de mim um milagre." Lya passou a mo pela barriga. "Mal posso acreditar que dentro de mim est crescendo um outro ser, uma nova vida." Ela olhou para Kate que dormia tranqila no carrinho. "Acho que tambm foi a Kate quem ajudou muito para que esse milagre acontecesse. Depois que estou com ela, apesar de tanta angstia e sofrimento, comecei a me sentir mais inteira, mais segura, menos inadequada. A maternidade, para mim, foi algo apazi-guador. Tenho a sensao que entrei em contato com outra dimenso da prpria vida. E devo tudo isso  Kate, um ser que depende inteiramente de mim."
Lya, percebendo que estava ficando muito emocionada, resolveu mudar o rumo dos pensamentos. Mas no foi capaz.
Quando o garom lhe trouxe a comida, vendo que estava com o rosto banhado em lgrimas, perguntou:
	Posso ajudar a senhora em alguma coisa?
	No se preocupe  ela respondeu baixinho.  S estou chorando de felicidade.
O garom, educadamente, a serviu e, antes de se afastar, disse:
	Se precisar de algo, senhora  s me chamar.
	Muito obrigada...
Lya, profundamente em paz consigo mesma, saboreou o peixe grelhado que havia pedido. Ao terminar o almoo, pagou a conta e deixou uma boa gorjeta ao garom.
Na rua, ela se encaminhou para uma praa e ficou olhando as crianas brincando.
"Deus vai me ajudar. Ainda vou vir aqui com a Kate e com essa criaturinha que trago dentro do ventre. E com Bob,  claro..."
Bob, aflito, chamava por Lya.
"Onde ser que ela foi? Deveria, pelo menos, me dizer que ia dar uma volta. Ser que no significo mais nada para ela? Ser que naquela discusso ulrapassei todos os limites do bom senso? Meu Deus, que fui fazer? Deveria ter sido mais solidrio, mais amigo. Mas, como uma criana frustrada, mergulhei no silncio da minha dor. Lya no merecia tanta indiferena. Ela merecia nica e exclusivamente o meu apoio. Onde j se viu agir da maneira que agi? A dor, o sofrimento, se tornam muito menos pesados quando compartilhados. Tenho medo que agora ela tenha definitivamente desistido do nosso relacionamento. E o que ser a minha vida sem ela?"
Desesperado, Bob sentou-se no sof da sala e segurou a cabea com as mos.
	Eu amo muito aquela mulher. Ela passou a ser a razo da minha vida, Lya  tudo para mim.
	 verdade isso o que est dizendo, Bob?  Lya que havia chegado e parado junto  porta, perguntou.
	Lya!
Nesse instante o telefone tocou.
	Deixa que eu atendo  ela disse e foi atender  chamada.
Em silncio, Bob se aproximou dela e pegou Kate.
	Sei  Lya dizia.  Tem certeza?
Alguns segundos se passaram.
	Tudo bem, doutor, o senhor no sabe como estou feliz por ouvir isso.  Ela fez uma pausa.  E quando isso vai acontecer? Certo. Certo. Entendido. Tem certeza que agora  definitivo? Tudo bem, muita obrigada.
De uma maneira plcida, ela colocou o telefone no gancho e perguntou:
	Aquilo que voc estava dizendo quando eu entrei  verdade, Bob?
	 verdade, sim. Eu te amo, Lya. Amo-te tanto que tenho certeza que vou enlouquecer se um dia voc me deixar.
Lya se aproximou dele e, depois de beij-lo de leve nos lbios, pediu:
	Repita o que acabou de me dizer.
	Eu te amo, Lya. Eu te amo.
	 muito bom ouvir isso, querido.  Com cuidado, por causa de Kate que continuava nos braos dele, Lya o abraou.  Eu tambm te amo. E esse amor que eu sinto  a coisa mais linda que me aconteceu.
	Desculpe-me pelo que eu lhe disse. Estava nervoso, inseguro, tinha muito medo de perder Kate. Temia que, se ela fosse embora, voc tambm me deixaria.
	Nunca pensei na hiptese de deix-lo, Bob. Nunca.
	Mas eu agi de uma maneira muito insensvel.
	Agiu, sim. Mas d para entender o que aconteceu com voc.
	Lya, jamais pensei que um dia eu iria ter uma famlia. A, quando tudo parece estar em ordem, a Susy liga para destruir tudo.
	A Susy, agora, j no mais nos ameaa.
	No?  Ele a fitou espantado.  O que est querendo dizer com isso?
	O telefonema que acabei de receber era do meu advogado.
	E o que ele queria?
	Ligou para nos dizer que Susy desistiu de vez da Kate.
	Ela fez isso?
	Fez.
	Mas aquela menina est muito confusa, a qualquer momento ela pode voltar atrs. Afinal, ela sempre voltou atrs nas decises que tomou.
	Pelo que o advogado me disse, dessa vez  definitivo. Ela arrumou um outro namorado e resolveu ir morar com ele em Miami.
	No acredito.
	Pois pode acreditar, meu amor.
	Mas ela deveria pelo menos ter ligado para voc.
	 o que ns faramos no lugar dela. Mas Susy resolveu jogar tudo para o ar e ir embora.
	E a adoo?
	Quem vai tratar disso agora  o advogado dela. E Lya "deixou uma carta onde diz que Kate  nossa. E j assinou tudo o que precisava assinar.
	Verdade?  Bob perguntou, sorrindo.  Quer dizer que a Kate vai ficar conosco?
	Vai, vai, sim.
	Isso  maravilhoso, meu amor. Maravilhoso!  Ele a beijou.
Kate, que at aquele momento continuava dormindo, abriu os olhinhos.
	Viu s?  Lya se fez de zangada.  Voc acordou a nossa filha.
	Mas ela tambm precisava participar desse momento de felicidade.
	 verdade... Kate tambm precisava participar desse momento de felicidade: no  sempre que se ganha um irmozinho.
	No entendi Lya. O que est querendo dizer com isso? Ser que resolveu adotar uma outra criana?
	No, pelo menos por enquanto, no vou adotar uma outra criana.
	Ento, como  que a Kate vai ter um irmozinho?
	Voc acredita em milagres?  ela perguntou e olhou para o prprio ventre.
	Milagres? Eu...
	Se no acredita, pode comear a acreditar. Estou chegando do mdico.
	Voc... voc est grvida?
	Estou, estou sim. Breve seremos quatro.
	Meu Deus! Estou me sentindo o homem mais feliz do mundo!
	E eu, papaizinho, estou me sentindo a mulher mais feliz do mundo!

FIM

